Jenny Holzer expõe verdades evidentes

Desde a década de 70, a nova-iorquina Jenny Holzer, que expõe a partir desta terça-feira na galeria Luisa Strina, coleciona frases, truísmos sem nenhuma conexão aparente ou implícita que hoje compõem seu arsenal de intervenções. Desde aquele tempo, a artista recolhe de portas de banheiros, anúncios de publicidade, placas de caminhão, cartazes lambe-lambe ou qualquer outro lugar as sentenças para depois recolocá-las em locais preferencialmente públicos.Jenny ficou conhecida principalmente por suas imensas projeções em fachadas de grandes edifícios de Nova York, estampadas por observações como "Proteja-me do que eu quero" ou "Tudo está delicadamente interconectado" e outros dizeres utilizados como se não fizessem o menor sentido - pelo menos não no contexto em que foram e são apresentados (cartazes, placas, projeções, instalações, portas de carros e outros suportes eleitos por Jenny).Mais recentemente, seu trabalho tem se voltado para uma espécie de recondução desses truísmos às suas fontes originais. Quando mostrou suas frases pela primeira vez traduzidas para o português no Brasil, em 1998, Jenny estampou-as em portas de táxis, tijolos de jornais, outdoors e em centenas de mensagens que espalhou por endereços eletrônicos da cidade.Também utilizou como veículo um grande letreiro eletrônico instalado no andar inferior do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, sua obra Blue montada por Marcelo Dantas, uma antena invertida que transmitiu em looping diariamente centenas de truísmos durante os dias em que ocorriam as intervenções urbanas.Quando voltou ao País, no ano passado, a estratégia foi exibir suas irônicas apropriações da comunicação verbal contemporânea em cartões-postais do Rio de Janeiro. Naquela visita, ela voltou a lançar mão da projeção para exibir os escritos no Arpoador e no Pão de Açúcar, por exemplo.Agora ela parece ter voltado mais bem-comportada. Na instalação que fica em cartaz na Galeria Luisa Strina, até o dia 13 de janeiro, a artista criou um espaço intimista e estático. Desdobramento da sua série Survival, a instalação da galeria é composta por quatro prosaicos banquinhos feitos de pedra verde. Os truísmos, em português, foram gravados sobre os tampos dos acentos, que lembram descansos de parques, mas também lápides, pela frieza do granito gravado.As frases reaparecem, sem nenhuma seqüência lógica, como é de costume, reproduzidas em inglês em três colunas de superfícies retangulares coloridas em alegres verdes, amarelos, rosas, vermelhos e azuis, em dois recortes retangulares pregados no chão e na parede. É como se a artista criasse uma paisagem enquadrada em retângulos para os possíveis usuários dos banquinhos dispostos um na frente do outro, com as cores inventadas no technicolor para seu parque de faz-de-conta.Com isso, Jenny reforça o artificialismo de suas frases roubadas. Sua paisagem pintada com cores que não existem, no ambiente confinado e asséptico da galeria, é tão pasteurizada como seu principal manancial de truísmos, a veiculação publicitária.

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