Jefferson Del Rios: Strindberg transposto para cinema e televisão

A quantidade de imagens de Julia - um espetáculo que se inspira no prestígio de August Strindberg, autor da peça Senhorita Júlia - atende a um objetivo da Cia. Vértice, do Rio. Em síntese, trata-se de "aprofundar a pesquisa de linguagem que se articule com os procedimentos da contemporaneidade".

O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2012 | 03h10

Imagens e filmagens são usadas para recriar um texto que concentra em grau elevado a luta de classe e o embate erótico com lances de sadomasoquismo físico, crueldade mental, sentimento de culpa e um grão de loucura e morte. Strindberg é o pai do cinema de Ingmar Bergman. Estamos de volta à guerra dos sexos com componentes de perversão ideológica e psíquica. É sempre interessante observar os ecos do jargão acadêmico nas propostas artísticas.

Virou praxe, por exemplo, dizer que objetos ou abstrações "dialogam" uns com os outros. Mas, no caso, o projeto - a pesquisa - é para dar ao velho Strindberg o referido selo de contemporaneidade. Sem isso, parece que seus textos poderosos e estranhos não bastam como foram escritos. Faltaria algo ao seu universo sofrido e visionário, aos seus pesadelos que continuam, sim, contemporâneos, apesar de eventuais referências sociológica e historicamente datadas. Enfim, estamos envolvidos na discussão sobre os rumos das artes cênicas. Surgem nomes - conceitos como "novas teatralidades", "processo colaborativo" ou "teatro expandido".

São práticas às vezes exteriores e mal elaboradas, junto a outras realmente inventivas no ímpeto de se ter uma câmara na mão e um palco na cabeça. Rigorosamente merecedoras de atenção, quando feitas a sério.

Mesmo que se discorde aqui e ali, é o caso da Cia. Vértice neste atual trabalho artístico de Christiane Jatahy (roteiro e participação na cenografia) e Marcelo Lipiani (direção de arte e cenário). São criadores na trilha do que começou lá trás com o Gesamtkunstwerk - termo do século 19 para "obra de arte total", segundo o compositor Richard Wagner e que no início do século 20 tem como figura expressiva o teórico e encenador alemão Erwin Piscator. Nenhuma dessas rememorações vai contra Julia da Cia. Vértice. Apenas constatam que foi preciso do aval do August Strindberg (1849- 1912) para uma montagem que expõe retratos sociais com linguagem cinetelevisiva. Não é também uma atitude de reverência paralisante diante do notável dramaturgo (não custa lembrar que no museu a ele dedicado, na Suécia, seu retrato é vendido como ímã de geladeira).

A viagem "do teatro para o cinema e de volta para o teatro e de volta para o cinema", como diz Jatahy, não é tranquila. O original de Strindberg sai danificado em termos de extensão dramática, mergulho psicológico e agudeza política. Não basta trocar um círculo de relações dos tempos da nobreza por pinceladas de negritude e favela. Isso, aliás, faz lembrar versos de Paulinho da Viola ("Tá legal/ eu aceito o argumento/ Mas não me altere o samba tanto assim"). Como mistura de linguagens, a primeira parte de Julia é de predomínio excessivo do cinema. Ou, melhor dizendo: do telão. A confirmação de um tempo novo em que se paga acima de R$ 500 para ver no telão dos estádios de futebol o popstar minúsculo no palco gigante.

Mas o enredo tem, enfim, teatro na segunda parte e, sobretudo, na sequência final de representação entre a mocinha-patroa (histérica e um tanto ninfomaníaca na fita) e o empregado submisso, mas pronto para soltar as feras do ressentimento. Esse teatro sofre um pouco para mostrar a beleza da sua força (arcaica?) e mostrar que os gregos não estavam errados quando o inventaram.

É a hora de o lugar-comum pedir licença para reiterar o fascínio da presença ao vivo do intérprete, quando se ouve sua respiração ofegante, o brilho do olhar ao agradecer o aplauso. Quando se recebe em cheio a energia de Julia Bernat (dias atrás, em um bonito momento, ela saiu do papel e desculpou-se baixinho com um espectador atingido de leve por um sapato jogado em cena). Um talento quente só prejudicado nos gritos agudos (sempre um horror em teatro).

É igualmente convincente a presença de Rodrigo dos Santos fora do estereótipo do macho brutal de pele escura (o negro potente, caricatura de Nelson Rodrigues e emblema movimento Black Power nos anos 1960). Na parte de cinema, Tatiana Tiburcio é convincente como a empregada que sabe que ricos e pobres, empregados e patrões não se misturam.

Enfim, temos lampejos de teatro - o de sempre e esse outro, preocupado em "aprofundar a pesquisa de linguagem", e intervenções do cinetelenovela com uma cena de sexo que parece querer o efeito de Último Tango em Paris, mas é apenas um escorregão no grotesco. A síntese trágica e convincente do espetáculo chega nas imagens de água e sangue que lembram um grande filme esquecido, Ato Final (Deep End), do polonês Jerzy Skolimowski, que tem algo a ver com a personagem emocional de Julia Bernat.

Crítica de teatro:

Jefferson Del Rios

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