Kieran Doherty/Reuters
Kieran Doherty/Reuters

Jeff Beck, a resistência do mito

Músico não acha sua música 'difícil', mas o importante,diz, é que está bem vivo para tocá-la

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2010 | 00h00

Em turnê mundial desde abril, quando lançou seu último álbum, Jeff Beck corre o mundo ao lado do baterista Narada Michal Walden, o tecladista Jason Rebello e a baixista e vocalista Rhonda Smith (que já se apresentou com Prince e substitui a jovem australiana Tal Wilkinfeld, sensação de shows recentes do guitarrista). Para o show de amanhã, no Via Funchal, ainda havia ingressos de pista à venda, segundo a organização do concerto.

Há uma presença invisível no seu novo disco: o cantor Jeff Buckley (1966-1997). Você gravou duas composições que ele deixou em seu único disco.

Está corretíssimo! As duas músicas são lindas (Lilac Wine, de James Shelton, e Corpus Christi Carol, de Benjamin Britten). É o meu tributo a Jeff. O disco que ele legou é muito emocional, muito belo. Um trabalho intrigante, desafiador. Usando apenas a voz, ele atinge regiões impensáveis do sentimento. Mas, ao gravar as canções que ele escolheu para si, não me sinto roubando dele, porque são duas visões muito diferentes. Acho que ele aprovaria. Tenho a impressão de que Jeff Buckley, embora tenha tido uma passagem muito breve pela vida, já se tornou algo parecido a Jimi Hendrix, cuja presença permanece para sempre.

No disco, há também a participação de uma orquestra com 64 músicos. Como você faz para mostrar essas músicas ao vivo?

A orquestra não está em todas as faixas, apenas em algumas. Num show menor, como os de São Paulo, fazemos a parte da orquestra com um sintetizador de cordas. Quando é um concerto grande, a gente faz o possível para conseguir uma orquestra e ensaiar com ela. É uma delícia quando isso acontece, mas creio que o público vai ter uma boa impressão da forma como apresentaremos com nosso grupo.

O que achou da declaração de Brian Ray, guitarrista de Paul McCartney, de que você faz canções fantásticas, mas que somente você consegue tocá-las?

(Risos) Não é uma coisa de todo má. Eu venho tocando há tanto tempo, desenvolvendo meu estilo, que às vezes pode parecer que é difícil, mas não acho assim. Por outro lado, ainda estou vivo, então há quem as toque. Eu vou tentar deixar a coisa mais mastigadinha para as próximas gerações.

Você é sempre mencionado como um dos últimos guitar heroes, como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jimmy Page...

Legal que você esteja mencionando meu nome ao lado de Jimi Hendrix, é muito gentil, não sei se mereço. Mas isso é uma coisa que não levo tão a sério. Quer dizer, é lisonjeiro, é claro, mas uma das diversões preferidas das pessoas é ficarem formulando listas. Sabe aquela coisa? As 10 Melhores Isso, As 10 Melhores Aquilo... Não é algo que eu leve a sério.

 

 

 

O que você tem ouvido ultimamente?

Django Reinhardt (1910-1953). A coisa que mais tenho ouvido nos últimos tempos. Observar o que Django fez, no tempo em que fez, e da forma que fez é algo que tem me deixado boquiaberto.

Woody Allen fez uma comédia em tributo a Reinhardt.

Uma comédia? Não consigo imaginar. Não tem nada de comédia a vida dele. Vou ver esse filme.

Por que você demorou sete anos para fazer um disco?

Não sei. Às vezes acontece, às vezes não. Primeiro, eu não tinha a banda adequada. Acho que a gente faz as coisas por oportunidades - as ideias certas, a banda certa, o momento adequado.

Como vê as mudanças na indústria fonográfica?

É sempre excitante a mudança. Hoje, a molecada está altamente seletiva, escolhe suas próprias bandas. O público decide o que acontece e o que não acontece, não é mais um departamento de marketing. Isso é bom. É divertido ver que as companhias de discos hoje estão vendendo ingressos.

JEFF BECK

Vivo Rio

Rua Infante Dom Henrique, 85. Hoje, 21h30. R$ 200/ R$ 400.

Via Funchal

Rua Funchal, 65, 3846-2300. Amanhã, 22 h. R$ 200/ R$ 300.

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