DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Jeans, a peça-curinga, saiu de cena na pandemia

Estaria ela condenada ao ostracismo em um mundo pós-Covid? Quem entende diz que não

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2020 | 07h00

Desde o início da pandemia, ela está em lockdown, em completo isolamento, incomunicável, guardada ou esquecida no fundo mais profundo do armário. Responda com honestidade: há quanto tempo você não usa uma calça jeans? Uma das peças mais versáteis do nosso guarda-roupa, um ícone que sobreviveu às intempéries da história, também foi uma das vítimas da covid-19. Com muita gente em home office, a busca pelo conforto e pela sensação de estar “à vontade em casa” fez com que a calça jeans ficasse um pouco esquecida.

A professora de moda, pesquisadora e jornalista Marta De Divitiis acrescentou um novo dado ao exílio do jeans. “As pessoas estão fazendo lives, usando o Zoom para reuniões. Por isso, estamos arrumadinhos da cintura para cima. Da cintura para baixo, as pessoas estão vestindo coisas mais confortáveis. Tudo o que se mostra hoje é da cintura pra cima”, disse.

A advogada e diretora de Recursos Humanos Caroline Nogueira, de 26 anos, sempre usou muito jeans – principalmente em seu ambiente de trabalho. Mas, quando a pandemia chegou, Caroline aposentou essa peça do vestuário. “A moda é uma interpretação daquilo que estamos vivendo, do nosso momento. Ficar em casa mudou a maneira que nos produzimos. No meu caso, significou a substituição da calça jeans por roupas mais confortáveis, por tecidos mais leves”, disse.

Mesmo agora, com a retomada do trabalho presencial na empresa em que atua, Caroline manteve o hábito confortável adquirido na quarentena. “Assim como eu, várias pessoas na empresa estão adotando um visual menos formal, com roupas mais leves. Não vejo mais muita gente de calça jeans ou de calças sociais apertadas”, afirmou. Carolina, inclusive, já promoveu um bazar para doar peças de roupa que não usa mais – calças jeans estão entre elas. “Sou consumista, mas percebi que tenho peças que nunca mais vou usar, que não se encaixam mais com o meu estilo”, completou.

Dados do IEMI (Instituto de Estudos e Marketing Industrial) mostram uma queda no consumo de peças de vestuário. A comparação do mês de abril de 2019 com o mesmo período de 2020 (mês considerado mais delicado pelo setor) mostra uma queda de 67% nas vendas – e, embora não seja uma pesquisa específica sobre a calça jeans, ela nos dá uma pista sobre o comportamento do consumidor nesse período. 

Para a gerente de negócios do IEMI, Bárbara Castro, o que aconteceu na pandemia é que as pessoas passaram a dar mais atenção para as necessidades da casa do que para o visual. “Trabalhando em casa, a gente começa a olhar para o sofá que está velho e precisa ser trocado, para os móveis que são muito antigos, para o jogo de toalhas desgastado... O que aconteceu é que, durante um período, o vestuário perdeu o protagonismo. Afinal, as pessoas estão trabalhando de pijamas, moletom...” 

Oportunidades. O carnavalesco André Machado, de 46 anos, estava envolvido com os preparativos do carnaval 2021 quando os trabalhos no barracão da escola Colorado do Brás foram interrompidos. Com as incertezas econômicas que o momento provocou, Machado reativou um velho negócio – uma pequena confecção de roupas de moletom montada na própria casa. “Comecei a vender moletom, calças de moletom, bermuda de moletom... Em casa, por exemplo, estamos todos usando moletom”, contou.

Machado acredita que esse período fez com que o “preconceito” contra o moletom acabasse. “Antes, o moletom era relacionado ao desleixo. Agora, a coisa mudou. O que o moletom promove é o conforto. Moda é praticidade”, afirmou.

Também do mundo do carnaval vem a empresária e rainha da bateria da Rosas de Ouro Ana Beatriz Godoi, de 36 anos. “Amo jeans, tenho muitos, é uma peça curinga que serve para diversas situações, mas esse é o momento de coisas mais leves e casuais”, disse. Ao notar a mudança de seu próprio hábito de consumo, Ana Beatriz criou uma loja online de peças mais leves. “Fundei a loja (@belive_sis) durante a pandemia. Percebi que precisava adequar minhas peças à necessidade do momento. E esse é o momento do conforto”, afirmou.

Herói da resistência. Apesar de todo o esquecimento, os problemas da calça jeans são temporários. A peça não está condenada ao ostracismo e já mostra sinais de recuperação. “Aparentemente, estamos acompanhando uma recuperação em ‘V’. Ou seja, o setor atingiu o fundo do poço, mas, com a flexibilização, a tendência observada é de uma retomada das vendas, inclusive por uma demanda reprimida”, disse Bárbara Castro, gerente de negócios do IEMI. “A questão agora é da própria indústria recuperar sua capacidade de produção – que foi afetada durante o auge da pandemia”, completou.

Inaugurada em outubro, a Denim City SP, um espaço que reúne cursos, coworking têxtil, centro de inovação, área de alimentação, showroom e loja, vem reforçar o poder do jeans na sociedade. 

“Como ícone mundial, o jeans tem uma capacidade de adaptação muito grande. Foi uma fase de muita call e reuniões pelo Zoom, o foco esteve nas peças da cintura para cima. Mesmo nas compras online, a preferência foi por peças menores, de modelagem mais simples. Agora, mesmo que lentamente, já é possível perceber a recuperação do mercado. Em breve, o jeans estará no lugar em que ele sempre mereceu estar outra vez”, disse Maria José Orione, diretora da acadêmica da Denim City.

“A partir de agora, na Denim, nossa missão é melhorar a comunicação do jeans. Há 10 anos ninguém conhecia nome de uva, por exemplo. Mas com o trabalho institucional, o mercado do vinho fez com que as pessoas conhecessem melhor o seu produto. O mesmo vale para o café e a cerveja. Esse é um trabalho de comunicação que precisamos fazer”, completou Maria José. 

Especialistas em jeans são unânimes em afirmar que a peça irá reassumir seu protagonismo no guarda-roupa em breve – ou tão logo uma vacina contra a covid-19 faça com que a vida no planeta volte ao normal. Sem a pandemia, poderemos todos voltar à segurança do jeans e a outros hábitos. “Tem sido um período de mudança de consumo. O batom, por exemplo, deve ter perdido muito mais mercado do que o jeans. Mas também irá se recuperar”, lembrou Maria José.

Ah, o batom na pandemia...! O batom... As pessoas de máscara... O batom... Se a pandemia foi ruim para a calça jeans, imagine para o batom. 

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