Jean Genet visto por seu biógrafo

Nos 100 anos do criador de O Balcão e As Criadas, o norte-americano Edmund White diz que ele não foi nem de longe o 'santo' descrito por Jean-Paul Sartre nem o 'diabo' pintado por seus inimigos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

Edmund White é um homem modesto. Não divide a opinião dos críticos que elegeram seu livro sobre Jean Genet (1910- 1986) um dos melhores do século passado. Diz que escreveu "apenas uma biografia um tanto tradicional" do escritor e dramaturgo francês, cujo centenário de nascimento, comemorado amanhã, vem sendo lembrado há algum tempo por seus amigos, leitores e biógrafos. No mês passado, sua amiga Jeanne Moreau, atriz do filme Querelle, de Fassbinder, baseado em Genet, leu em dueto com o cantor pop Étienne Daho, no Teatro Odeón, a primeira obra conhecida do autor, O Condenado à Morte, um longo poema de amor escrito atrás das grades, em 1942, quando o autor de Diário de Um Ladrão cumpria pena por roubo na prisão de Fresnes, periferia de Paris. Daho gravou o texto integral para seu próprio selo, Radical Pop Music. O americano Edmund White, que adotou a capital francesa como seu segundo lar, viajou muito para atender a todos os pedidos de organizadores de seminários e encontros sobre a obra de seu biografado, mas dedicou um tempo ao Sabático para responder a perguntas sobre Genet.

A primeira delas diz respeito à tentativa de cronistas reduzirem alternadamente Genet a santo ou a vilão. Sartre, seu amigo filósofo, encaixa-se no primeiro caso: canonizou-o aos 42 anos numa hagiografia, Saint Genet: Ator e Mártir, ensaio filosófico sobre a trajetória de um ladrão que veio a se tornar o dramaturgo mais discutido da França no pós-guerra. Susan Sontag acusou Sartre de se apoderar de Genet para defender uma tese particular - a da possível metamorfose de um ladrão num esteta refinado. White, amigo de Sontag, discorda da falecida ensaísta. Diz que Sartre escreveu um "grande livro" e que não caiu na armadilha de definir Genet por hipérboles. "Seu livro, contudo, é mais uma psicanálise existencial que uma verdadeira biografia". A única exaustivamente pesquisada, aliás, é a de White. Outros livros sobre o dramaturgo tratam de sua literatura e filosofia, esbarrando apenas em temas espinhosos que seu biógrafo não evita.

Um deles é a polêmica relação de Genet com a causa palestina. Em 1982, ele visitou os campos de refugiados de Chatila e escreveu sobre essa experiência. Enquanto muitos defendem que Genet se tornou um defensor intransigente da luta armada da OLP, White prefere ver sua relação com os palestinos como determinada pela compaixão e o afeto, não pelo radicalismo político. "Genet foi o primeiro europeu a visitar Chatila e ficou tão comovido pelas cenas de morte e destruição que teve de quebrar esse silêncio de anos para criar uma verdadeira peça literária", diz White.

Enquanto o mundo discutia se a culpa pelos massacres de Sabra e Chatila cabia às tropas israelenses que cercaram os campos durante a guerra do Líbano ou aos falangistas libaneses cristãos, Genet escrevia Quatro Horas em Chatila, testemunho comovente da morte dos refugiados. O texto, longa reflexão sobre a violência do Estado, é classificado por White não como uma análise fria da situação política, "mas um documento humano emocional". De fato, para ser justo com Genet, é preciso lembrar que, em 1983, ele disse que sua lealdade aos palestinos acabaria no dia em eles se tornassem uma instituição. Ou uma nação.

Genet era contra a ordem estabelecida, como provou em suas peças, particularmente em O Balcão (Le Balcon, 1957), em que um bordel é usado como metáfora do poder institucionalizado - ironicamente, sua dona, Irma, e seus clientes militares conseguem conter uma revolução que toma conta da cidade, restaurando a ordem e a "moral" (dos poderosos, é claro). A mesma estratégia alegórica foi usada depois em Os Negros (Les Nègres, 1958), em que a colonização da África é encenada por suas vítimas num território fictício ocupado pelos "mestres loucos" de Jean Rouch, ou seja, pelos colonizados. White diz que Genet não queria expurgar nenhuma culpa política ou dívida com os afrodescendentes. "Ele escreveu panfletos e deu várias palestras sobre os Panteras Negras, mas nunca produziu literatura para eles ou sobre eles até Um Cativo Apaixonado." Esse foi o último livro de Genet, morto por causa de um câncer na garganta. É também uma prova incontestável de que se sentia deslocado no mundo, não pertencendo nem aos radicais palestinos nem aos Panteras Negras. Genet foi sempre um homem à parte.

"O que mais impressiona em Genet é sua capacidade de viver várias vidas, seja como mendigo em Morvan (filho de uma prostituta adotado por um casal da Borgonha), como pequeno criminoso ou dramaturgo sofisticado, um dos grandes romancistas de sua época, amigo de homens como Giacometti e Sartre, além dos Panteras Negras e palestinos", observa White. Surpreende, contudo, que sendo indiferente às ideias do movimento gay, ao contrário de seu biógrafo, Genet tenha contribuído para criar uma literatura de caráter homossexual. "Seus cinco romances, mas não suas peças, são baseados em sua experiência homossexual, que o ajudou a criar Divine, a primeira drag queen da literatura", aponta White. "Ele retratou a sexualidade gay com lirismo e um olhar terno até hoje inigualáveis."

Genet aprendeu isso com a leitura de Proust, lembra o biógrafo. "Ele sempre dizia que se inspirou nele para escrever ficção." Foram ambos dândis, assegura - o primeiro mais interessado na psicologia do amor e Genet, nos movimentos da história. "Ele foi também mais corajoso, ao assumir sua homossexualidade", conclui White.

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