Marcio Fernandes/AE-5/10/2009
Marcio Fernandes/AE-5/10/2009

J.C. Violla professor de 21 mil alunos

Celebrando as três décadas de seu tradicional estúdio em Pinheiros, ele fala de seu percurso e da dedicação ao ensino

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2010 | 00h00

Rua Alves Guimarães 445, Pinheiros, cidade de São Paulo. Mais de 21 mil alunos em 30 anos de aulas dadas no mesmo endereço. São números muito expressivos e exclusivos, que transformam o estúdio de J.C. Violla em um "case". Não foram poucas as escolas que fizeram sucesso e depois fecharam, e o seu estúdio de uma sala só atravessou todas as turbulências dessas três décadas, mantendo-se lotado.

Em entrevista ao Estado, J.C. Violla conversou sobre essa singularidade, dentre outras, do seu percurso profissional. "Tive e ainda teria possibilidade de ter uma escola grande, com muitas salas. Vários alunos me convidaram para esse projeto, outros queriam abrir uma casa noturna com o meu nome, uma confecção, um café, propuseram franquias do estúdio em outros Estados. Talvez não tenha visão de empresário. Durante alguns anos, me perguntava se não tinha jogado fora essas oportunidades, se tinha feito burrice. Mas o que eu sei é dar aula e dançar, dediquei a minha vida a isso, não sei fazer outra coisa. E dei cada aula prestando atenção em cada um desses mais de 21 mil alunos."

Os próprios alunos se espantam com a memória do professor. "Dou aula há mais de 35 anos e sou muito bom fisionomista. Se não reconheço de imediato um ex-aluno, basta que tire o sapato e mostre o seu pé. Às vezes, estou na praia, vejo um pé passando, subo o olhar e encontro um rosto conhecido. O pé é muito importante no meu trabalho, talvez por influência de Dona Maria, minha professora que claudicava, ou pela minha facilidade, desde criança, para saltar bem alto. Sei que não é comum, mas conheço as pessoas pelo pé."

Carreira. Além de ter sido a primeira a lhe dizer que era bailarino, Maria Duschenes também foi responsável por sua iniciação na carreira de professor. Sua primeira aula foi no ginásio do Sesc Consolação, onde Dona Maria, a mestra que trouxe os estudos de Laban para São Paulo, dava um curso para 200 terapeutas. "Foi entre 1973/1974, e assustei quando ela simplesmente me colocou para dar aula para eles."

Os que frequentam suas aulas agradecem nunca mais terem deixado de ser professores, mas os palcos lamentam a ausência do artista que, em 1978, criou um grupo com seus alunos que marcou a dança brasileira. Foram três trabalhos com total sintonia com as mais importantes questões do seu tempo: Senhores das Sombras, Últimos Santos (1978), Valsa para 20 Veias (1980, remontada em 1981 no Balé da Cidade de São Paulo, a convite de Klauss Vianna), e Flippersports (1981). Sem o grupo, criou Petruchka (1982) e Nijinsky (1987).

Naum Alves de Souza participou de todas as suas produções. A parceria se iniciou em 1975, quando Myriam Muniz dirigia o show Falso Brilhante, de Elis Regina, e convidou Naum para fazer os cenários e figurinos, e Violla para cuidar da preparação corporal e da coreografia.

Na dança de salão, foi um pioneiro. Tudo começou com um curso, em 1985, o Dancing in the sky, que se tornou histórico. Seus ecos soam ainda hoje, na popularidade crescente desse tipo de dança, e também em dois outros espetáculos seus, novamente com seus alunos: Salão de Baile (1983) e Bailes do Brasil (1997). Em 2002, apresentou o seu primeiro solo: Doze Movimentos para Um Homem Só.

Criação. Indagado se não planeja voltar a criar, responde que tem vontade de fazer algo com muita gente, como antes, e, ao mesmo tempo, de elaborar algo para si mesmo, e que também pensa em voltar a ser ator. "Dou muitas aulas e crio bastante dentro delas, são pequenas improvisações, fruto de minhas pesquisas. Passo a semana trabalhando com bastante gente, e, no fim de semana, fico com vontade de me recolher."

Com uma forma física impecável, tornou-se um andarilho. Na cidade, ou quando está em férias, faz quase tudo a pé. "Gosto muito de mar e conheço grande parte do litoral do Brasil a pé. Vou caminhando o dia todo e, de noite, durmo em algum lugar. Meu trabalho sai do meu corpo, ele precisa estar sempre em ordem. Tenho tido sorte, não tenho problemas graves, acho que sempre soube me cuidar", revela ele.

Ele se diplomou em geologia e publicidade, e anda pensando em estudar filosofia. Mas quando fala, há sempre algo de seu lado professor: "Minhas assistentes (Maria do Carmo Arcieri, Helena Mangini, Nelly Guedes) trabalham comigo há mais de 20 anos, e Suely Barbosa, minha secretária, há 22 anos. Talvez seja porque sempre procuro olhar para cada um de verdade."

Uma carreira da qual se orgulhar, um percurso coerente, construído com a dedicação dos que fazem uma escolha e nela empenham a sua vida. Só falta voltar a dançar, celebrando o 30.º aniversário de seu estúdio. Porque não são muitos os que podem, aos 63 anos, dizer: "Não sinto que se passaram tantos anos."

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