J.C. Serroni, um dos maiores nomes da cenografia brasileira

Em mais de 30 anos de carreira, ele fundou o Espaço Cenográfico, que já formou 150 profissionais em 10 anos

Livia Deodato, de O Estado de S. Paulo,

02 de junho de 2008 | 16h23

O único projeto de arquitetura que fez em sua vida foi a casa de praia do seu irmão em Rio das Ostras. "Era ‘bonzinho’. Pelo menos, a casa não caiu até hoje", brinca. Poucos sabem que J. C. Serroni, um dos maiores nomes da cenografia brasileira atualmente, formou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 1977. E menos ainda imaginam que, na verdade, ele só prestou vestibular para esse curso porque era o que mais se aproximava de sua vocação. Sublinha, inclusive, a ausência da disciplina de cenografia na academia até hoje. "Existe uma grande carência por cursos nessa área e acredito que o arquiteto já tenha metade do caminho andado para a cenografia, pois estuda história da arte, estética, projetos."   Veja também: Galeria com fotos de Serroni no Espaço Cenográfico  Programação de aniversário do Espaço Cenográfico   As dificuldades encontradas no caminho autodidata que Serroni percorreu em pouco mais de 30 anos de carreira, levou-o a criar um espaço dedicado à pesquisa e experimentações há exatamente uma década. Nos escombros de um imenso galpão na Rua Teodoro Baima, 88, onde já funcionou uma pizzaria, ele fundou o Espaço Cenográfico, que já formou cerca de 150 profissionais. A experiência adquirida em 11 anos de trabalho no Núcleo de Cenografia do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), coordenado por Antunes Filho, foi fundamental para abrir as portas do seu próprio centro de formação. "Vinte e uma turmas passaram pelo CPT e pelo Espaço Cenográfico, o que significam mais de 300 pessoas formadas", contabiliza. "Há cerca de 10 anos, eu concorria ao Prêmio Shell com o Charles Möeller, que foi o meu aluno, e ele ganhou. É uma honra."   Serroni acredita que o diferencial em seus cursos é o fato de o aluno ter de pôr, literalmente, a mão na massa: seja lá qual projeto o cenógrafo estiver tocando, sua turma vai acompanhá-lo. Em Leonce e Lena, de Gabriel Villela, por exemplo, seis estudantes se dispuseram a montar um cenário feito com 2 mil caixas de papelão, trabalho que levou 2 meses. "As pessoas querem muito fazer isso aqui porque é um curso prático." Em 10 anos, somente nos últimos dois o Espaço Cenográfico cobrou uma taxa de R$ 300 - isso porque estão sem patrocínio. "Tendo patrocínio, o curso é gratuito, porque quero que, em troca, os alunos estagiem aqui."   O autor de cenários emblemáticos como Paraíso Zona Norte, dirigido por Antunes Filho em 1989, sempre quis ir muito além da ginga e criatividade pela qual o Brasil, por falta de recursos, é reconhecido internacionalmente; Serroni quer ensinar técnica e promover o conhecimento. "Lá fora eles têm respeito pelo nosso jogo de cintura, aquele que com jornal faz um Macunaíma maravilhoso, com eucalipto cria um espaço mágico para Vereda da Salvação e com lixo, um cenário impactante para A Barca dos Mortos. Se a gente faz tudo isso sem nada, então faríamos muito mais com as devidas condições."     Dez mandamentos da cenografia   1. Ator é o centro do espetáculo. 2. Cenografia não é ‘shopping center’. 3. Cenografia é uma arte integrada. 4. Cenografia e luz se dependem. 5. Cenografia é imitação da realidade. 6. Cenografia necessita sempre de projeto. 7. Em cenografia nunca se contente com a primeira idéia. 8. Seja simples, porém não simplista. Procure a síntese. 9. O piso do palco também é cenografia. 10. Em cenografia nada pode ser gratuito.

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