JAZZ FUNK PERDE O SEU MESTRE

Donald Byrd fica na história como um dos maiores trompetistas do gênero

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2013 | 02h05

O influente trompetista Donald Byrd, craque do hard bop, expoente do jazz funk, sampleado em dezenas de discos de hip-hop, morreu na segunda-feira da semana passada, aos 80 anos. A notícia foi divulgada por seu sobrinho, o pianista Alex Bugnon, que disse não ter mais paciência com "o manto secreto colocado sobre a morte por familiares próximos". Até o fechamento desta edição, a causa não havia sido divulgada.

Byrd iniciou sua carreira nos anos 1950, com os Jazz Messengers, a lendária fábrica de talentos de Art Blakey, que formou craques como Clifford Brown, Horace Silver e Wayne Shorter. Gravou como líder e sideman, tocando com John Coltrane, Thelonious Monk, Sonny Rollings, Eric Dolphy, Herbie Hancock e outros. Um dos grandes trompetistas da época áurea da hard bop, seus lançamentos pela Blue Note estabeleceram sua reputação entre os destaques da gravadora com composições acessíveis, e um timbre de trompete límpido.

No final dos anos 60, a influência de Miles Davis levou Byrd a enveredar pelo fusion. Byrd, no entanto, concebeu uma fórmula mais acessível para o gênero. Acoplou a batida constante do funk, trouxe melodias e vozes, não improvisação, ao primeiro plano. Alcançou a fama com o famoso grupo The Blackbyrds, emplacando hits como Happy Music e Walking in Rhythm. Mas ao mesmo tempo que alcançou visibilidade com um público mais amplo, a integridade de Byrd passou a ser questionada. O tom acessível de seus clássicos da época, como Black Byrd ou Street Lady, por exemplo, provocaram a ira de puristas por fugir das complexidades associadas ao jazz.

Por outro ângulo, esta guinada foi o grande trunfo de Donald Byrd. Embora um excelente trompetista, seu legado pela Blue Note não tem a influência canônica de Freddie Hubbard, por exemplo. Já no território do fusion, sua visão orquestral do funk, auxiliada pela produção de Larry Mizell, é considerada um dos momentos seminais do fértil gênero setentista que viria a influenciar diversos artistas de hip-hop nas décadas seguintes.

Estas podem ser ouvidas em discos de artistas como Nas, Madlib, Pharcyde, J Dilla e Public Enemy, que samplearam exaustivamente a discografia de Byrd. J Dilla adaptou Think Twice para uma das faixas de Welcome 2 Detroit. Byrd também participou no grupo Jazzmatazz, do rapper Guru, da dupla Gang Starr, ressaltando sua importância para o movimento de jazz-rap.

Donaldson Toussaint L'Ouverture Byrd II nasceu em Detroit, Michigan, em 1932. Seu pai, um pastor metodista, era músico amador, Ao terminar o colegial, Byrd já havia tocado com o grupo de Lionel Hampton. Mudou-se para Nova York, em 1955, em busca de um diplo da Manhattan School of Music, e em dezembro do mesmo ano, foi convidado a juntar-se aos Jazz Messengers, de Art Blakey, como substituto do seu ídolo Clifford Brown. Byrd deixou os Messengers no ano seguinte, e em 1958, assinou um contrato com a Blue Note que duraria até os anos 1980. Enquanto band leader e sideman, gravou com todos os grandes da época, de Sonny Rollins a John Coltrane, de Red Garland a Herbie Hancock (foi em seu disco Free Form, de 1961, que Herbie gravou seus primeiros acordes). Entre seu respeitável legado de discos dos anos 60, está A New Perspective, de 1963, que incorporou corais gospel a arranjos de jazz. Cristo Redentor, a pérola do disco, foi um dos seus primeiros sucessos.

"Lembraremos de Donald como um trompetista visionário, que trilhou por diversos estilos musicais, e ensinou gerações de músicos", escreveu Bugnon. "Em suma, Donald foi um ávido e eterno aluno, até o dia de sua morte. É o que eu tento ser, todos os dias! Descanse em paz, tio", completou o músico.

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