Keiny Andrade/AE-5/9/2006
Keiny Andrade/AE-5/9/2006

Jazz e Pop sem crise

O dilema do crossover não tira o sono de Jamie Cullum. Em cinco discos (o próximo está no forno) o pianista e cantor inglês, dono de um mélange de pop e jazz, transita sem crise entre fronteiras estilísticas, desenvolvendo uma mistura mais pop que Diana Krall, menos jazz que Esperanza Spaulding. O equivalente a uma Norah Jones para a moçada. Cullum, que vem ao Brasil em maio para o festival Natura Nós, sabe tocar piano. Tem um vocabulário de jazz considerável e não tem medo de engatar o bebop no pop rock. Durante o processo de gravação de seu novo disco, o pianista falou ao Estado sobre sua identidade híbrida e seus gostos musicais.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2011 | 00h00

Afinal, você é um jazzman que virou pop star ou um aspirante a pop star que virou jazzman?

Tenho de escolher? Sou um músico de jazz que cresceu ouvindo pop, rock e hip-hop. Para mim, não há necessidade de separar os estilos. Obviamente, como compositor, compreendo quando as pessoas me colocam em uma categoria fixa. Mas há tantos elementos do jazz no hip-hop, na música de grupos como o A Tribe Called Quest e na dos Roots. Há tantos elementos do rock na música de Herbie Hancock e Miles Davis, assim como as harmonias jazzísticas estão presentes nas composições de cantores como Jeff Buckley e Nick Drake, de grupos como o Steely Dan, o R.E.M. e outras bandas de rock. Na minha cabeça, tudo se encaixa perfeitamente. E passei os últimos 15 anos da minha vida feliz por não ter de separar as coisas.

Mesmo assim, o seu estilo pianístico tem uma influência consideravelmente assimilada de Horace Silver e outros mestres. Você passou muito tempo estudando-os?

Horace é um ótimo exemplo. O que me levou à música dele e de outros foi a habilidade que tinham de tocar diferente toda vez que interpretavam a mesma peça. Tinha participado de bandas de rock até então, e sempre ensaiava milhares de vezes para tocar as músicas do mesmo jeito. Mas a possibilidade conversar com os músicos no palco e reproduzir o que eu sentia no momento me ganhou. O primeiro solo que transcrevi foi o de Wynton Kelly em Freddie Freeloader, do disco Kind of Blue, de Miles Davis. Qualquer um que esteja interessado em tocar piano jazz deveria começar com este disco.

Existe preconceito dos músicos de jazz por você misturar a linguagem com música pop?

Isso sempre acontece antes de eles tocarem comigo. Eles sempre acham que vai ser uma coisa e acaba sendo outra. O meu amor pela música é sincero, e minha disciplina para conhecer o jazz cada vez mais, também. Eu tenho muito a aprender, mas passei muito tempo aprendendo esta música, então posso dizer que sou verdadeiro.

Como surgiu esse amor?

Eu morava no Reino Unido com os meus pais. Estudava e descobri o jazz aos poucos. Procurei pessoas que tinham o mesmo interesse e aos 16 anos comecei a trabalhar como músico. Eu tocava em bandas de rock por prazer, mas percebi que poderia ganhar a vida tocando em barzinhos. Quando me formei, recebi uma oferta para tocar em uma banda de cruzeiro, navegando pelo Caribe e as Ilhas Gregas. Tinha 20 anos de idade, sabe? Livre, leve e solteiro. E fui conhecer o mundo.

Em que ponto de sua carreira você começou a sentir-se confortável com o estilo híbrido?

Provavelmente depois dos meus dois primeiros discos. Um conselho que sempre dou a jovens músicos quando eles me perguntam como fazer para encontrar a própria voz é "gravem um disco". Só me encontrei mesmo depois do quarto álbum. Esse amadurecimento artístico é parte do que faz as coisas se manterem frescas e interessantes. Ouvir um artista crescer, desenvolver seu próprio estilo é, para mim, algo fascinante.

Você tem um programa de jazz semanal na BBC Radio 2 e é conhecido por ser rato de sebos. Possui muita música brasileira na coleção?

A última vez que estive no Brasil, comprei um vinil do Bossa Três. Excelente. Também comprei alguns discos do Milton nos anos 70, algumas coisas do Gil e dos Mutantes. Mas gosto de coisas novas também, como a Roberta Sá, que cantará no festival.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.