Jazz à brasileira

Copacabana Palace, Golden Room, início dos anos 1960. Foi naquele salão, no mesmo piano Steinway, o qual ainda reina em mãos habilidosas, que Cesar Camargo Mariano iniciou a carreira profissional pra valer no Rio, pela primeira vez fora de São Paulo, dos bares e das boates, acompanhando "um grande artista", Lennie Dale (1934-1994). Décadas depois, ele relembrou comovido aqueles momentos, no sábado, ao pisar pela segunda vez o mesmo palco e tocar as mesmas teclas. Foi um dos momentos mais emocionantes dos seis ótimos shows apresentados na segunda edição do Copa Fest, festival de sofisticada música instrumental brasileira, que dá um flash-back aos tempos em que os trios agitavam a noite do vizinho Beco das Garrafas, com seu misto de jazz e samba, cheio de bossa.

Lauro Lisboa Garcia / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2010 | 00h00

Cesar fez o terceiro e último show da melhor noite do festival, que teve dois pianistas e um guitarrista, Chico Pinheiro, primeira atração, e esquentou com o Jet Samba, de Marcos Valle. Único expoente da nova geração, Pinheiro estava perfeitamente adequado ao espírito da coisa, tocando sua expressiva guitarra ao lado de um trio de jovens feras: Fábio Torres (piano), Edu Ribeiro (bateria) e Marcelo Mariano (baixo), filho de Cesar, que depois voltou para tocar com o pai.

Além de temas próprios, como Tempestade (parceria com Chico César) e Tema em 3, Chico mandou bem em temas de Dorival Caymmi (Requebre Que Eu Dou um Doce), Moacir Santos (Nanã) e João Donato (Café com Pão), confirmando o que já se sabia: é um arranjador muito criativo e imprevisível, cheio de surpresas prazerosas.

Após ele, Marcos Valle deu um banho de suingue e animação no caloroso show Jet Samba, que tanto vem impressionando o público de jazz no exterior. Acompanhado de Mazinho Ventura (baixo), Renato Franco (sax e flauta), Renato Massa (bateria) e o incrível José Sadock (trompete e flugelhorn), ele tocou mais piano elétrico do que acústico. De cara, interpretou o marcante tema da primeira versão da novela Selva de Pedra (1972). Azimuth, sua primeira composição para TV, levantou a plateia mais ao fim do show.

Valle mesclou com maestria temas do novo trabalho e outras composições clássicas de seu cancioneiro, como Preciso Aprender a Ser Só, Samba de Verão e Um Novo Tempo (Hoje É Um Novo Dia), aquele jingle de fim de ano composto em parceria com Nelson Motta em 1971.

Intimismo. Em momentos intimistas como Preciso Aprender a Ser Só (que Valle tocou ao piano acústico), um dos pontos altos do show, um ronco constante no sistema de som chegava a incomodar. Mas, no mais, como lembrou Chico Pinheiro, o público de música instrumental é respeitoso e exigiu silêncio até dos garçons para ouvir a impecável abertura de Cesar Mariano, sozinho ao piano. Era a senha para o rio de refinadas emoções que se seguiria, ao lado do baterista Julinho Moreira e Marcelo Mariano (contrabaixo).

"Esta sala, este bairro, essa rua aqui atrás têm muita história", frisou Cesar, lembrando que no período auge da bossa nova se tocava muito com piano, baixo e bateria. Por isso, resolveu fazer o show com essa formação instrumental. Para lembrar os bons tempos do Beco das Garrafas, tocou Eu Só Posso Assim (Marcos Vasconcellos/ Pingarrilho) e Olhou Para Mim (Ed Lincoln/ Silvio César), homenageou Sabá (Sebastião Oliveira da Paz) e Johnny Alf em O Que É Amar. Lembrou a influência que exerceu sobre ele a música do filme The Sandpiper (Adeus às Ilusões), ao tocar The Shadow of Your Smile (Johnny Mandel), suingou no samba-jazz na intrincada Bala Com Bala (João Bosco/ Aldir Blanc), que ele próprio arranjou para Elis Regina gravar.

O Copa Fest é daqueles festivais que parecem pequenos, mas resultam grandes. Se para os mais velhos faz relembrar o movimento do Beco das Garrafas, para os mais jovens remete às boas noites do saudoso Free Jazz Festival. Ou clubes de jazz como Blue Note (NY) e Ronnie Scott (Londres), onde só rola boa música. Shows como esses são dignos dos melhores festivais internacionais.

Na sexta, Zé Luis, que tem o saxofone como principal instrumento, abriu o evento comandando a surpreendente Banda Magnética formada por jovens e talentosos instrumentistas. Pedro Martins (guitarra) e Filipe Moura (trompete), dois destaques da big band, têm respectivamente 16 e 15 anos. Carismático e excelente músico, Zé tocou temas próprios e rearranjou composições de Cartola, João Donato, Sergio Mendes, Milton Nascimento, Caetano Veloso, um Tom Jobim menos óbvio (Captain Bacardi), João Bosco, promovendo uma suingueira irresistível.

Hermeto Pascoal veio em seguida, com seu free jazz nas mãos das feras Itiberê Zwarg (baixo), Vinicius Dorin (sax), André Marques (piano), Marcio Bahia (bateria) e Fábio Pascoal (percussão), além de Aline Moreira usando a voz como instrumento. Imprevisível, Hermeto interagiu com a plateia, tocando chaleira, pulando e regendo os músicos como se estivesse brincando.

O pianista Osmar Milito, outro ícone da bossa nova, é convidado de honra do Copa Fest e, segundo o curador Bernardo Vilhena, vai encerrar todas as edições. No domingo, "brincando de saudosismo", ele emocionou o público recriando temas de Tom Jobim ("ele faz tanta falta"), Miles Davis, Luiz Eça, Gershwin, Durval Ferreira. Foi um encerramento de luxo do festival que destacou e lembrou de músicos e arranjadores "que deixaram uma semente para a música brasileira" e cuja tradição de excelência os seguidores mantêm viva.

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PRODUÇÃO DO EVENTO

DESTAQUES

Marcos Valle

"Este lugar é sensacional, aqui tem um charme, uma mágica", disse o músico, que fez arranjo especial de Samba de Verão e contou histórias engraçadas por trás de temas como Adams Hotel e Lost in Tokyo Subway

Chico Pinheiro

Expoente da nova geração, o guitarrista elogiou a iniciativa do festival e foi visto, entre outros, por Edu Lobo, que deve tocar com ele e Cesar Camargo Mariano num encontro na Sala São Paulo no fim de maio

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