Jay-Z volta com disco calcado em batidas puristas

'Magna Carta... Holy Grail', que chega às lojas terça-feira, subverte o status quo eletrônico do hip-hop mainstream

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2013 | 02h09

2012 foi o ano em que o hip-hop oficializou seu casamento com o pop eletrônico. O namoro já vinha de alguns anos antes, acompanhando a ascensão da dita EDM (electronic dance music) ao posto de carro-chefe das baladas e megafestivais americanos. Baseou-se no sucesso de Lady Gaga, Black Eyed Peas e DJs na linha de David Guetta - e infiltrou o gênero afro-americano com um arsenal de crescendos, blips e furadeiras sonoras até que, em 2011 e 2012, fez-se onipresente na Billboard, em singles de Nicki Minaj, Whiz Kalifa e Kanye West.

Pois bem, cortemos para Jay-Z, o sumo pontífice da indústria rap, que durante este tempo esteve mais preocupado em cuidar de sua filha, gerenciar um time de basquete, produzir a trilha do Grande Gatsby e tentar ser manager do Neymar, do que fazer rimas. HOVE, Jay-Z ou Shawn Carter - dependendo da ocasião - não estava ativo, mas estava atento, ouvindo, matutando o seu próximo e venenoso bote que chega às lojas nesta terça-feira, por meio das 16 faixas de Magna Carta... Holy Grail. Um minuto de silêncio para ponderarmos a genialidade de um artista cujo décimo quinto disco é uma patada do calibre e contundência de Magna Carta...

Não é para qualquer um. Muito além do ponto em que qualquer rapper destacado estaria rindo ao contar dinheiro para o resto de sua vida, Jay-Z ainda tem verve para reafirmar sua posição de poderoso chefão da indústria. Faz isso ao subverter a estética robótica que emana do hip-hop consorciado à EDM e à trap music, e rimar sobre um punhado de batidas que aponta para um hip-hop mais puro, remanescente dos tempos nova-iorquinos em que Jay-Z ainda era um traficante desconhecido, com ambições artísticas.

Falar em vintage é um desfavor ao disco. Jay-Z não está nostálgico e sua música passa longe da irrelevância senil. Com produção dos veteranos Timbaland e Swizz Beats, participações de Beyoncé, Pharrell, Frank Ocean, Justin Timberlake e Nas, Magna Carta vence pela maestria de suas batidas, a maioria das quais tem um sabor mais funkeado e substancial do que se acostumou a ouvir no hip-hop recente, com o renascimento da trap music e as influências de EDM, os quais entram como referências, mas não predominam no disco.

Vide Versus, um beat de 50 segundos, que lembra o trap, mas é bolado sobre um esquema rítmico de contrabaixo e samples provavelmente tirados de um disco de soul; ou a belíssima Part II, cantada por Beyoncé, feita com um verniz sofisticado de r&b oitentista, cool como uma faixa de Sade; ou o rock n' roll de Picasso Baby.

Ao centro destas finesses de produção, Jay-Z rima sobre família e fama com um flow que lembra os tempos de Reasonable Doubt, seu clássico de 1996. A contundência vocal faz de Magna Carta um disco de rap contemporâneo como se fazia antigamente, um paradoxo, e também uma guinada esperta, que deixa o recente, mais eletrônico, Yeezus, de Kanye West, na poeira.

MAGNA CARTA... HOLY GRAIL

US$ 9,99 (iTunes), a partir de 9/7

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.