Javier Cercas fala sobre passado e presente em sua obra

Autor fala nesta quinta em Paraty sobre livros em que usa a guerra como pano de fundo

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo,

04 de julho de 2012 | 18h12

PARATY - Para o escritor espanhol Javier Cercas, a fronteira entre ficção e realidade não é definida. Basta observar seu livro mais conhecido, Soldados de Salamina (2002), que acompanha o tormento de um jornalista empenhado em descobrir o que de fato aconteceu com um poeta que acabou criando o partido de sustentação do ditador Francisco Franco. Ou ainda o mais recente Anatomia de um Instante (2009) que trata de um golpe de Estado acontecido em 1981. Os dois livros, lançados agora pela editora Globo, reconstroem, com artimanha ficcional, fatos reais. É sobre esse território embaçado que Cercas falará nesta quinta-feira, 5, na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Assunto também da seguinte entrevista, realizada por e-mail antes de sua viagem ao Brasil.

 

Em seus recentes livros, a Guerra Civil Espanhola e a do Vietnã são panos de fundo. Por que lhe interessam as guerras?

Pior ainda: em meu último livro publicado, Anatomia de um Instante, o pano de fundo é uma tentativa de golpe de Estado - ocorrida em 23 de fevereiro de 1981 - que quase desencadeou uma guerra na Espanha! O que vejo nas guerras? Seria mais fácil explicar aquilo que não vejo, porque nas guerras encontra-se praticamente tudo; de fato, as guerras são como uma grande lente de aumento que nos permite ver o pior e o melhor do ser humano, quer dizer, permitem que vejamos o ser humano em toda a sua complexidade. Num certo sentido, são também o momento da verdade, aquele em que os homens descobrem realmente quem são; por isso as guerras fascinaram desde sempre os escritores e, desde a Ilíada e a Bíblia até Faulkner ou Borges, há apenas uma grande obra ou um grande autor que não trate da guerra de uma maneira ou de outra. Além disso, se a literatura é uma forma de exorcizar os demônios - ou ao menos de tratar de entendê-los - em certo sentido não fui eu que busquei as guerras como tema; as guerras é que vieram atrás de mim: a Guerra Civil e o golpe de Estado de 23 de fevereiro são os dois grandes demônios coletivos do meu país, e a Guerra do Vietnã é um dos grandes demônios coletivos dos Estados Unidos - ou do mundo atual.

 

Cada vez mais escritores recorrem aos romances históricos ou os que se desenvolvem no passado próximo. Como explicar tal desinteresse pelo presente?

Não gosto da expressão "romance histórico", menos ainda quando é aplicada aos meus livros, que não considero romances históricos, mas romances que em todo caso têm em conta a História. Por outro lado, não sinto nenhum desinteresse pelo presente, seja como cidadão ou escritor, ao contrário. Meus livros quase nunca falam do passado sem com isto comentar o presente, pelo simples motivo de que o passado, como dizia Faulkner, não passa nunca, não se trata de algo que esteja ali, distante, estático e imóvel, e sim de uma dimensão do presente, algo que está permanente aqui - em permanente transformação, porque a visão que temos dele se transforma à medida que nós mesmos nos transformamos. O passado é a matéria da qual somos feitos, de modo que o presente não pode ser entendido sem ele. Isto talvez não seja válido - ou seja válido em menor grau - para o passado remoto, mas sim para o passado recente, este que ainda forma parte de nossas vidas.

 

Hoje a história se interessa muito pelos detalhes. Estaria a literatura tomando seu lugar?

Creio que não; ao menos não é assim que as coisas deveriam ser. Há um motivo fundamental para tanto: a literatura e a história se parecem na sua busca pela verdade, mas se diferenciam porque buscam verdades opostas (mas complementares, que não se excluem mutuamente). A verdade da história é uma verdade concreta, precisa, factual, uma verdade que se ocupa daquilo que ocorreu a determinados homens num determinado tempo e lugar; ao contrário, a verdade da literatura é uma verdade abstrata, moral universal, uma verdade que se ocupa daquilo que ocorre a todos os homens em qualquer tempo e lugar. Isto é sabido desde Aristóteles, e continua a ser verdadeiro.

 

O sr. se interessa mais pelas diferenças entre passado e presente, ou pelas semelhanças que podemos observar entre diferentes épocas?

Como já disse, me interessa a maneira com a qual o passado permanece vivo no presente, na sua maneira de nos determinar, nos explicar e nos habitar. Esta é, para mim, uma descoberta relativamente recente. De fato, até escrever Soldados de Salamina, meus livros falavam quase apenas do presente, eu era um escritor perfeitamente pós-moderno, meus romances eram romances lúdicos, irônicos, às vezes cômicos, fantásticos, e meus mestres fundamentais eram Borges, Kafka, Calvino e certos autores do pós-modernismo americano, como Donald Bathlelme; a partir de Soldados de Salamina, não reneguei nada disto, mas, nos meus últimos livros, o passado desempenha um papel que não desempenhava nos primeiros porque, ao escrever este romance, descobri que o passado é uma dimensão do presente, que não pode ser explicado sem ele. Também descobri outra coisa, complementar à anterior: o fato de o coletivo ser uma dimensão do individual, e o de não podermos nos explicar sem os outros.

 

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