Alexandre Moreira/ Divulgação
Alexandre Moreira/ Divulgação

Jards, o pupilo que recebeu a 'coroa de palha'

Além de contar toda a trajetória do músico, o livro Moreira da Silva - O Último dos Malandros, de Alexandre Augusto, traz um encarte com fotos, a discografia completa do artista e um glossário com as gírias da época cantadas por Moreira, a personificação do malandro carioca.

Lucas Nobile, Especial para O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2013 | 02h15

Ao longo de mais de 300 páginas, o autor conta desde a infância pobre de Antonio Moreira da Silva no Rio, passando pelo início da carreira nos anos 1930 (com as primeiras gravações de Moreira, pontos de macumba de Getúlio Marinho); pela inventividade ao introduzir um discurso no breque do samba Jogo Proibido (de Tancredo Silva); pelo apelido de "Moreira da Silva, O Tal, O Personalíssimo", dado pelo radialista Cesar Ladeira; pela rivalidade com o cantor Jorge Veiga; e chegando às últimas gravações de Moreira, como no disco Os Três Malandros In Concert, em que ele, Bezerra da Silva e Dicró faziam uma brincadeira com os famosos Três Tenores: Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti.

"Acho que Moreira foi o grande intérprete (de bambas como Ribeiro da Cunha, Miguel Gustavo e Wilson Baptista, que também foi mestre na vertente do samba de breque), principalmente por sua teatralidade, através da qual criou um tipo, o do 'malandro', que ele na vida real, ao que consta, nunca foi. Jorge Veiga também foi um bom samba-brequista", diz o escritor, compositor e pesquisador Nei Lopes.

O livro também narra as histórias das parcerias do sambista com nomes como Ribeiro Cunha e Miguel Gustavo (chamado por Moreira de Michael Gustaf nas gravações de grandes sucessos com letras bem humoradas e cinematográficas), além da participação de Moreira no antológico Ópera do Malandro, de Chico Buarque, e do encontro nos anos 1970 com Jards Macalé para shows que faziam parte dos projetos Seis e Meia e Pixinguinha.

Um dos pontos altos do livro é a passagem que relata a prisão de Macalé em Vitória, no Espírito Santo, em 1978, pelos militares, após ele cantar Casca de Ovo e Sim ou Não, músicas consideradas pelos censores como ofensivas para a época.

"Moreira me ensinou a ser profundamente carioca, na questão do humor, tanto no palco quanto na vida. Nos últimos três aniversários dele, diziam que eu era seu seguidor, mas eu respondia: não sou rei de nada, a coroa que o Moreira me passou não é de ouro, não é de prata, não é de lata, é de palha", conta Macalé, em referência aos três chapéus panamá que ganhou do sambista. Com Moreira da Silva, aliás, ele compôs Tira os Óculos e Recolhe o Homem, relatando o episódio em que ficou preso por nove horas.

Macalé diz ter duas biografias sendo escritas sobre ele, uma autorizada e outra não. "Sou uma lenda viva, não tenho nada a esconder. Quero que contem minha história na versão sexo, drogas e rock'n'roll. A verdade é sempre muito mais rica do que o acobertamento de histórias", diz o compositor.

"Queria saber o que tem de tão cabeludo na vida desse pessoal (do Procure Saber, grupo que representa músicos como Roberto Carlos, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Milton Nascimento e Djavan no debate sobre a autorização de biografias) que não pode ser revelado. Não tem que ler o livro antes. Caso se sinta constrangido por algo, entra na Justiça. E ainda querem cobrar o dízimo pela vendagem. Isso é uma loucura", completa Macalé.

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