Jardin des TUILERIES

O conto a seguir, de Manoela Sawitzki, tem como protagonista o dramaturgo francês Jean Genet, nascido há um século; o texto estará na coletânea Escritores Escritos, que sai em julho pela Flaneur

, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

"Minha vida visível não foi senão disfarces bem mascarados."

Senhora!

- Sim?

- A senhora deixou cair.

- Não, isso não é meu.

- Eu tive a impressão de que caía enquanto a senhora passava...

- Desculpe, mas realmente...

- Então encontramos juntos!

- Não, eu...

- Por favor, senhora, fique com ele!

- Eu não poderia, quem achou foi...

- Porque eu olhava para o chão enquanto a senhora se distraía com a paisagem. O que importa é que eu tenho fome e a senhora, mãos muito bonitas. Vamos, experimente!

- Mas...

- Me permite? Veja, ficou perfeito!

- Não é possível, ele é seu por direito.

- E deve ser seu. Nota-se que é uma boa mulher e terá a imensa generosidade de me oferecer um bom prato de comida em troca dessa joia. Não pude comer nada o dia inteiro. De qualquer forma, o que um homem como eu faria com um anel valioso como esse? Dirão que o roubei ou coisa pior.

Ninguém mais passa por esta alameda do Jardin des Tuileries às cinco da tarde deste 15 de abril. Contudo, perto dali, um pequeno grupo de crianças brinca no parque, dois colegas de classe fumam seus primeiros cigarros, carros se ultrapassam, e um jovem belga de 24 anos chamado Thomas vê o amigo de infância atravessar a Pont Royal, e grita-lhe o nome com o coração disparado.

Embora sorria, o velho tem olhos sombrios, ela pensa. O corpo lhe parece frágil e, por isso, inofensivo. De certa forma, lembra-lhe o pai: o mesmo olhar turvo, a cabeça grisalha e calva como um campo devastado pelo inverno, a voz rouca, esmaecida. Em geral, desconfia dos homens, mas não consegue fugir de uma piedade instantânea diante dos velhos. Ou talvez seja apenas horror à ideia da própria velhice - nunca lhe ocorria investigar demasiado o que, por natureza, a embaraçava. Assim como nunca fora capaz de sentir pelo pai aquilo que dizem ser o amor de um filho. Informara-se a respeito (conhecia descrições, nuances), então sempre que se fazia necessário se expressar como ente amoroso, podia (minimamente) convencer. Dava-lhe menos trabalho a imitação. Somente a velhice do pai os aproxima.

Leva em conta a idade do homem e o fato de ele carregar um livro no bolso do casaco, quando calcula os riscos de estreitar aquele contato às cinco horas da tarde, numa alameda deserta do Jardin des Tuileries. Em seguida, também calcula o que carrega na bolsa enquanto mais uma vez verifica que o encaixe do anel em seu anular é exato.

Quanto ao homem, se quisesse roubá-la, já o teria feito. Embora não espere, de forma alguma, ser assaltada por um francês. Deve ser honesto, conclui. Ainda que pobre. E ela não é o tipo de pessoa que acredita que todo pobre padece de alguma deformidade moral. Sobretudo sendo francês. Ainda que cheire mal. E, enquanto ele lhe sorri com turva humildade, ela encerra os cálculos ciente de que possui setenta e oito francos para passar o resto do dia, e se pergunta se dez serão suficientes para satisfazer a fome do pobre velho francês.

- O senhor gosta de ler...

- A senhora parece surpresa.

- Como se chama?

- Jean.

- Prazer, sou Mercedes.

Os dois se medem em silêncio. Ele já não sorri.

- E o senhor faz o quê?

- Eu? Divirto o mundo com meu passado.

- Não entendo...

- Conhece Jean-Paul Sartre, senhora?

- O filósofo? Evidentemente.

- Ele diz que sou santo.

Está louco, ela pensa, enquanto abre a bolsa, retira as moedas da carteira, tomando cuidado para não revelar demais ao estranho, e estende-lhe a mão, a mesma que traz agora, perfeitamente encaixado, o anel que a sorte lhe alcançou em seu último passeio por Paris.

- O que é isso?

- Dinheiro para o seu jantar.

- Desculpe, deve haver algum engano.

- Sei que é pouco, mas é tudo que tenho, senhor.

- Dez francos?

- Dez francos.

- Por um anel de ouro?

- Sinto muito.

- Para um homem que lhe disse ter fome?

- O senhor pode ficar com o anel.

- A senhora realmente não entende.

- Realmente eu...

- Seria mais digno lhe tomar a carteira.

- O que o senhor está dizendo?!

- Que seria mais digno abrir sua barriga e levar sua carteira, senhora.

- É uma ameaça?!

- Uma constatação.

- Eu não pedi para ficar com isso.

- E eu não lhe pedi uma esmola, senhora. Não preciso do seu dinheiro, sugeri que me convidasse para o jantar.

- O senhor e eu?

- Em um bom restaurante.

- Não acho que seja possível.

Ela torna a abrir bolsa e carteira. Nervosamente. A mão logo exibe 30 francos para os quais Jean olha com indiferença.

- Para o seu jantar. Em um bom restaurante. Aceite. Agora é tudo.

Ele, impassível, pega o dinheiro, guarda-o no bolso da calça e se afasta. Perto dali, Thomas caminha lado a lado com o amigo de infância até o Café Very. Minutos antes, ao abraçá-lo depois de cinco anos, descobre que o ama. De outro bolso, Jean retira um anel dourado e sorri contido ao lançá-lo aos pés de uma jovem holandesa que se distrai com a paisagem numa alameda do Jardin des Tuileries.

A AUTORA

Nome: Manoela

Sawitzki (1978)

Origem: Santo

Ângelo (RS)

Principais obras:

Nuvens de Magalhães (Mercado Aberto, 2002), Suíte Dama da Noite (Record, 2009),

ambos romances.

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