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Jantando com os mortos

Custa de US$ 300 a US$ 1.000 assistir a ‘The Dead’ em NY e cear em cena com intérpretes

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

10 Dezembro 2016 | 02h00

Descobri na semana passada que o teatro participativo – sim, ele ainda existe – substituiu seus costumeiros estrados e andaimes por mesas com pratos, talheres e guardanapos. 

Tenho um pé atrás com essa forma interativa de encenação teatral desde que um estouvado ator do Fura dels Bals me borrifou com vinho tinto durante uma performance do grupo catalão num daqueles festivais de teatro de Ruth Escobar, nos anos 1970; e desconfio que ainda não será desta vez que irei me reconciliar com tal modalidade de interação palco-plateia.

Na nova formatação, os espectadores se juntam aos atores no palco, tornam-se figurantes do espetáculo e brindam, bebem  e jantam com o elenco. Como não me apetece comer fora com um bando de gente, muito menos com pessoas desconhecidas, nenhuma inveja sinto dos que podem desembolsar de US$ 300 a US$ 1.000 para assistir à atual montagem em Nova York de The Dead (Os Mortos) – e cear em cena com seus intérpretes. 

Valeria como curiosidade se os ingressos fossem menos salgados. Até a última terça-feira, os mais caros custavam US$ 500. É o ágio para quem faz questão de comer ao lado ou bem perto dos dois principais atores da companhia.  No cardápio, filé com molho de figo, presunto caramelizado, batatas, pudim de pão, bebidas, Kate Burton e Boyd Gaines. Os dois últimos não são marcas de vinho da Califórnia, mas os nomes dos protagonistas dessa montagem do Irish Repertory Theater, patrocinada pela American Irish Historical Society e posta em cena numa townhouse estilo vitoriano na esquina da 5.ª Avenida com a Rua 80, onde ficará em cartaz só até 7 de janeiro.

Creio ser esta a terceira reencarnação do conto de James Joyce numa ribalta. Meio século atrás, Hugh Leonard reduziu-o a um ato, na Broadway; com o século chegando ao fim, transformaram-no num musical. O cinema prestou-lhe a melhor das reverências: uma adaptação fiel ao original, dirigida com extrema sensibilidade por John Huston. Os Vivos e os Mortos foi o último filme de Huston,  seu adeus, surpreendentemente bergmaniano, ao cinema.

Os Mortos é o último e o mais longo dos 15 contos de Os Dublinenses. Quase uma noveleta de 46 páginas (na tradução da Civilização Brasileira), sua ação transcorre durante um jantar familiar em Dublin para festejar a Epifania, o Dia de Reis, e experimentar o outro significado que a palavra epifania tem: uma súbita e inevitável manifestação espiritual provocada por algum objeto, alguma lembrança, alguma revelação, algum acontecimento. Não estragarei o prazer de quem ainda não leu o conto. 

Joyce definia as narrativas de Os Dublinenses como a história moral da Irlanda com enfoques diversos (infância, adolescência, maturidade e vida pública), distribuídas nessa ordem. Os Mortos corresponde à Irlanda do convívio social. Em meio a um ritual de hábitos e costumes dublinenses, com muita dança, comida, bebida e uma atávica vocação para a hospitalidade, uma inesperada revelação mexe até com a visão que os convivas têm de si próprios e de sua condição social. 

Reli o conto há dias para ter uma ideia de como sua atual e convivial encenação pelo Teatro de Repertório Irlandês poderia ser e para exorcizar o annus horribilis que estamos prestes a enterrar, este sinistro 2016 de tantas perdas irreparáveis e nenhuma epifania. 

Procurei em vão para reler o conto que Samuel Beckett escreveu como pasticho de Joyce, A Wet Night (Uma Noite Molhada), também ambientado numa festa natalina em Dublin, igualmente animada por canções e recitativos. Se bem me lembro, terminava com uma melancólica contemplação invernal similar à de Os Mortos: toda a Irlanda coberta de neve, “a cair suave através do universo, a cair brandamente, como se lhes descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos”. É um dos fechos mais celebrados da literatura do século passado. 

Se não me engano, Joyce, para quem Beckett trabalhou como secretário, não chegou a ler A Wet Night, publicado muitos anos depois da morte do mestre. Não se importaria com a apropriação, já que ele próprio tinha um débito com Homero (Ulisses) e, só em Dublinenses, com Dante (alguém detectou ecos da Divina Comédia em Graça, penúltimo conto da coletânea) e Dickens (a cujo clássico natalino, cheio de otimismo, Joyce contrapôs uma versão pessimista, intitulada Argila).

Apropriação é uma definição pobre. A correta ou a mais próxima ao espírito da coisa seria transcontextualização, palavrinha feia, comprida demais, além de besta, que nem sei se traduz com rigor o que os gringos chamam de “interart traffic”, uma modalidade de parasitismo consentido: se Joyce “trafica” com Homero e Dante, por que Beckett – e Joyce Carol Oates – não podem fazê-lo com Joyce? 

Não estranhem a aparição de Oates. Ela aqui entrou não por seu prenome, mas por ter-se aventurado a também transcontextualizar  Joyce no homônimo  conto The Dead, incluído em Amor e Morte – Casamentos e Infidelidades, traduzido pela Civilização Brasileira 30 anos atrás. Publicado originalmente em 1972 e a princípio intitulado The Death of Dreams (A Morte dos Sonhos), começa num desanimador quarto de hotel de Detroit (terá sido intencional a aliteração Detroit-Dublin-Death-Dream?) , com a escritora Ilena Williams, meio chapada por remédios, a devanear sobre seus ex-amantes e um rapaz, morto há tempos, que era tão apaixonado por ela quanto o finado Michael Furey fora por Gretta Conroy no conto joyciano. 

Ilena é uma projeção de Gretta e um alter ego de Oates. A temática de sua obra possui nítidos pontos de contato com a de Oates. Seu trabalho mais recente é uma série de narrativas curtas em homenagem a escritores aos quais se sente afetiva e literariamente ligada. Num momento de franqueza e modéstia, Ilena admite não existir individualmente, ser apenas “o término de uma tradição, o fim de alguma coisa, não a sua melhor parte, somente a sua extremidade”. Realiza-se honrando autores mortos, reimaginando suas obras e obsessões, unindo-se a eles como uma mulher se junta a um homem, erótica e espiritualmente. 

Em vez de tentar um exercício analógico, Oates vai se aproximando lenta e sinuosamente do espírito joyciano, adotando-lhe imagens, caracterizações, até envolver sua narradora numa atmosfera soturna e onírica semelhante àquela em que o casal dublinense Gabriel-Gretta quebra o gelo do isolamento e ajusta contas com os seus fantasmas, com os seus mortos mais próximos e queridos.

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