Janelas para a finitude

No romance Terra de Casas Vazias, André de Leones ratifica a morte e o elemento religioso como peças centrais de sua já madura ficção

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA* , O Estado de S.Paulo

06 Abril 2013 | 02h18

Terra de Casas Vazias é o livro mais ambicioso de André de Leones. Ele estreou em 2005, com o premiado Hoje Está Um Dia Morto, conquistando o respeito da crítica e a atenção do público. O autor de Paz na Terra entre os Monstros (2008) se impõe como uma das vozes mais destacadas da nova geração. O que é uma conquista importante, pois, ao contrário do que creem os adeptos da "melancolia chique", a literatura brasileira atravessa um momento particularmente fecundo, com uma pluralidade inédita de núcleos temáticos, visões de mundo e modos de escrita. É preciso manter os olhos bem fechados para não se dar conta da potência do momento presente.

No caso de André de Leones, os elementos principais de seu projeto literário já podem ser discernidos.

A questão da finitude destaca-se como motivo-chave. A morte - e, por assim dizer, suas variações - constitui matéria-prima dominante em seu universo ficcional. Além disso, a insubmissão a divisões monocromáticas favorece a experimentação com gêneros considerados menos "nobres", o caso de Dentes Negros (2011). Daí, sem considerar hierarquias apriorísticas, seus textos remetem tanto à literatura quanto ao cinema como fontes de diálogo.

A geração de André de Leones aprendeu a descobrir formas e estímulos em meios os mais diversos: cinema, televisão, videogames, mangás, internet, e, claro, a própria literatura - e não necessariamente nessa ordem. Os ensaístas e críticos, como o autor deste artigo, precisam transformar em práxis o que sempre repetem oswaldianamente em textos e salas de aula: "ver o mundo com olhos livres".

Essa é a conquista de autores como o goiano André de Leones (1980), colaborador, como resenhista, deste caderno. Seu percurso possui ainda um dado singular: a relevância do religioso em sua visão do mundo. Porém, como consciência aguda da finitude, e não como religião institucionalizada.

Em Terra de Casas Vazias, no fundo, o religioso articula a narrativa, dando aos personagens e episódios uma densidade peculiar.

A começar pelo título. No segundo capítulo da primeira parte, ele aparece na fotografia da cidade de Brasília: "Silenciosa e tranquila terra de casas vazias". O leitor não deve se contentar com essa explicitação; afinal, um personagem do romance se chama Isaías. Ora, no Livro de Isaías, no capítulo 13, versículo 22, a profecia contra os babilônios antecipa um cenário de destruição: "E os animais selvagens das ilhas uivarão em suas casas vazias, como também os chacais nos seus palácios de prazer; pois bem perto já vem chegando o seu tempo, e os seus dias não se prolongarão".

A associação não é arbitrária: inúmeras referências bíblicas se encontram na superfície do texto. O próprio dilema de preservação da fé diante de uma grande perda costura as tramas paralelas que compõem o romance. Distintas experiências de perda estruturam a narrativa, cujo plano piloto é fornecido pelas vivências de três casais.

Na primeira parte, Terra de Casas Vazias, Teresa e Arthur lidam com duas ausências: a da mãe de Teresa, morta por um câncer fulminante; e de Arthur, o filho dos dois, vitimado por um atropelamento. Em ambos os casos, a morte é um relâmpago que chega sem anúncio, transformando-se em luto inconcluso. Afinal, "o que pode haver numa casa? São todas vazias, no fim das contas".

Aureliano e Camila, na segunda parte, Miastenia, conhecem faces muito diferentes da morte. Policial, o marido a desencontra, banalmente, todos os dias, recorrendo ao antídoto: manter distância, "não se importar para não enlouquecer". Porém, Camila contrai miastenia, e, num contraponto irônico, o casal passa a viver à espera de uma morte a crédito; lenta e inexorável, aliás, da qual ninguém escapa, mas, aqui, a morte vive à espreita, numa iminência angustiante. Nesse caso, como aviar a receita em aparência infalível: "Tudo depende disso, da distância que você consegue manter".

A terceira parte, Presente Contínuo, ocupa a parte central do livro - e se trata de um achado importante. É a mais dura do romance, embora, ao recuar no tempo, recuperando a infância dos primos Arthur e Aureliano, não deixe de resgatar restos de inocência que ainda se preserva. No entanto, a crueldade, a perda, e, sobretudo, a morte já se anunciam como determinantes na vida dos dois meninos, constituindo um perverso "presente contínuo" de seu futuro.

Marcela e Nathalie compõem o casal que, na quarta parte, A Inutilidade, esboça uma alternativa à consciência de viver para a morte. As duas se conhecem numa clínica de reabilitação e a atração que as une equivale à promessa de inesperada ressurreição - motivo religioso por excelência. Há mais: Isadora (mãe de Aureliano, Marcela e Maria Fernanda), como autêntica personagem bíblica, engravida aos 52 anos. O narrador escolhe cuidadosamente os termos para definir o acontecimento: "É um milagre"; "celebrar a Nova Anunciação". Na trajetória de André de Leones, essa parte adiciona um aspecto menos frequente, pois, apesar da onipresença do fantasma da finitude, surge um vestígio de utopia, ou, pelo menos, uma fruição intensa e potencialmente libertadora do aqui e agora.

A última parte, Mar Morto, busca relacionar os três casais, mas o seu eixo é determinado pelo esforço, por parte de Teresa e Arthur, de superar a morte do filho. Sintomaticamente a narrativa se encerra em Jerusalém e o desencontro é a tônica: o casal estará sempre (des)unido pela perda. Recorde-se o fecho do romance; Teresa procura pelo marido:

"Chamou outras vezes, a voz cada vez mais baixa.

Arthur fotografava o nada diante de si, a paisagem marítima adormecida, a névoa ausentando a outra margem.

Não a ouvia".

O pensador alemão Wolfgang Iser propôs uma pergunta tão simples como fundamental: por que os seres humanos necessitam de ficção? Por que não podemos senão narrar nossas experiências, a fim de conferir sentidos possíveis à miríade de eventos desconexos que (des)estruturam o dia a dia?

A resposta de Iser ilumina a literatura de André de Leones. As duas experiências-chave da existência humana permanecem inacessíveis à consciência imediata. Ninguém "vivenciou" o próprio nascimento, tampouco poderá "recordar" sua morte. Somos, assim, narrativas incompletas; livros em aberto; erratas ambulantes a que falta sempre a última emenda. A condição humana, portanto, equivale a um relato cujo alfa e ômega não podem ser escritos.

Contudo, talvez possam ser lidos - vicariamente, bem entendido; com base numa experiência ficcional.

Laurence Sterne, por exemplo, em A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, fez o personagem homônimo rememorar o próprio nascimento.

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis inventou um "defunto autor" que encontra o momento ideal para a escrita autobiográfica: após a morte, instante propício para narrar o encontro com a inevitável das gentes.

Carlos Fuentes prestou uma bela homenagem aos dois em Cristóbal Nonato. O personagem homônimo descreve não o nascimento, tampouco a morte, mas o momento em que é literalmente concebido pelos futuros pais. Instância maior de precocidade narrativa não se conhece!

Na última página, André de Leones propõe uma poderosa metáfora matriz dessa circunstância. Teresa mergulha no Mar Morto e a imagem que lhe ocorre permite que o leitor compreenda retrospectivamente todo o romance:

"(...) Ficou boiando em círculos, os olhos fechados. Os risos e os gritos ao redor. Feito crianças. Tentou pensar em outra coisa. Ocorreu-lhe, então, que tudo se resumia a uma única margem, sem ponto de chegada do outro lado.

Meu Deus. Margem alguma do outro lado".

Mergulhar sem "margem alguma do outro lado" ou habitar uma "terra de casas vazias": figurações de uma literatura pensante - retomando a expressão de Evando Nascimento. Espero que os partidários da "melancolia chique" comecem a ler com atenção autores como André de Leones.

* É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ

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