Janela da alma

'Getúlio - Últimos Dias' é um thriller político que tenta retratar a intimidade do poder acuado

Entrevista com

Luiz Carlos Merten / Rio, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2013 | 02h13

Vem de longe o desejo do diretor João Jardim de realizar o filme que agora se concretiza como Getúlio - Últimos Dias. Anos atrás, ele participou de uma minissérie da Globo, Agosto, que tratava justamente deste período. Desde então, o filme estava no imaginário de Jardim. Terminou atingindo o formato atual. Ele sabe que está colocando a mão num vespeiro. A persona de Getúlio Vargas sempre acirra controvérsias e desperta paixões. O pai do povo, o caudilho, o ditador. Existem muitos Getúlios. O que ele retrata é o Getúlio constitucionalista, que não quis rasgar a Constituição pela terceira vez, como fizera durante a própria ditadura. E é, também, um pai, visto pelo olhar da filha, Alzira.

Getúlio é Tony Ramos, que João Jardim sempre quis ter no papel. Há quatro anos, quando lhe propôs o personagem, o ator tomou um susto. "Mas eu não sou nem um pouco parecido com ele!" Leon Cakoff, o criador da Mostra de São Paulo, que fez o papel em O País dos Tenentes, de João Batista de Andrade, era. Foi então que Jardim mostrou a Tony Ramos uma foto antiga do presidente. Parecia com ele. Mesmo assim, a produção não força a semelhança. A ideia não é transformar Tony Ramos em Getúlio. Mas ele está próximo. Uma prótese dotou-o não apenas de barriga (leia abaixo). O roteiro, a prótese, tudo ajuda, mas Tony Ramos precisou criar o 'seu' Getúlio.

Neste momento em que o presidente deixa pela primeira e última vez, em 19 dias, o Catete, ele está desmoronando, como seu governo. "Ninguém escreve ao coronel", George Moura lembra Gabriel García Márquez. O Getúlio alquebrado pisa duro, marcial, para mostrar que está no comando. Ele não fala, ou fala com a linguagem do corpo. Nenhuma vez Tony Ramos se movimenta exatamente igual. Você sente a tensão. Mais tarde, neste mesmo dia, à noite, outra cena será filmada neste mesmo jardim. Alzira Vargas, interpretada por Drica Morais, vai olhar para as janelas iluminadas do palácio, e lá dentro seu pai estará realizando a última reunião do gabinete.

George Moura e João Jardim documentaram-se da forma mais extensa possível. Leram livros, viram filmes. Getúlio chegou a ser caricaturado por Oscarito em Nem Sansão nem Dalila, de Carlos Manga - e conta a lenda que Getúlio era o primeiro a rir da imitação. "Trabalhadores do Brasil!", assim ele iniciava seus discursos, conclamando as massas. Não importa se sabia do atentado ou se foi traído - não importa na ficção. O Catete vira o bunker de Getúlio, e qualquer semelhança com o filme sobre os últimos dias de Hitler não é mera coincidência, embora nem Moura nem Jardim estejam querendo fazer essa comparação. "Este é um momento decisivo, em que Getúlio se dilacera entre a lealdade de alguns e a traição de outros. Ele se isola, mas não se esconde. E manda investigar o atentado." Doa a quem doer.

"O filme é um thriller político", define o roteirista. "Algo como Argo, para usar um exemplo recente, ou os filmes de Costa-Gavras, para citar outros mais antigos." João Jardim admite que fez muita lição de casa antes de abordar um projeto tão grande. E revela - "Foi difícil levantar a produção e há pouco mais de um ano quase começamos a filmar. Tínhamos o roteiro, o dinheiro, mas aí o Tony foi fazer Guerra dos Sexos." Hoje, Jardim agradece à Globo e à novela, pois teve um bom tempo para melhorar ainda mais o roteiro e pensar no filme. Fez storyboard de cenas importantes, visualizou outras que já estavam prontas na sua cabeça antes mesmo de começar a filmar.

A representação do poder - os carros são de época, os agentes de segurança andam em duplas e, neste dia, os soldados que fazem a segurança militar do presidente não são meros figurantes. São membros da Marinha, que vestem o uniforme do Exército. O espectador talvez nem vá perceber isso, mas Walter Carvalho, que assina a fotografia - e reencontra seu codiretor de A Janela da Alma -, observa. "Olha como os caras seguram a arma. Nenhum figurante saberia fazer isso." Preocupado com o macro, em desvendar/entender um momento decisivo da história do Brasil, João Jardim não descuida dos detalhes. Um filme tão forte - jornalístico - tem espaço para a beleza? "Se não, o que eu estaria fazendo aqui?", Walter Carvalho responde com outra pergunta.

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