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Janeiro, Jano e Januária

Isso mesmo. Em seu início, nosso mês de energias renovadas era o 11.º mês do ano

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

02 de janeiro de 2019 | 02h00

Feliz ano novo, estimado leitor e querida leitora! Começa 2019 pleno de promessas feitas, expectativas e metas que buscam se renovar. Ou seja, alvissareiro como qualquer outro início de ano. Terminará modorrento e sendo empurrado como os anos que o antecederam. Falhou o tempo ou nós é que não entendemos as contradições de janeiro?

Os antigos romanos inventaram essa história. O calendário original do Lácio tinha dez meses, começando em março, mês de Marte, deus bélico cujo sangue corria nas veias de Rômulo e Remo. Em algum momento, durante o período monárquico, dois novos meses tiveram de ser criados para ajustar a contagem do tempo ao tempo da natureza, das estações do ano. Apenas dez meses de cerca de 30 dias haviam criado um descompasso entre o plantio, a colheita e a época do ano em que esses processos deveriam se dar. Nesse contexto, criaram janeiro e fevereiro e os puseram para encerrar o ano. 

Isso mesmo. Em seu início, nosso mês de energias renovadas era o 11.º mês do ano, logo carregado da mesma síndrome que contamina novembro nos nossos dias. Novembrite é uma doença que tem muita descrição na literatura médica. O mês não passa, se arrasta, tem (psicologicamente) 60 dias, drena a energia do corpo, corrói as cordas vocais, aumenta nossa necessidade de selênio e zinco, especialmente entre professores.

Enfim, janeiro foi guindado a primeiro mês do ano em outra reforma calendárica romana. Júlio César, por último, agregou-lhe dois dias e, como resultado, lá está nosso velho conhecido e esperado mês com suas 31 jornadas. Mas vamos nos atentar: ele manteve a ambiguidade no nome e na alma.

Já escrevi sobre isso, mas não custa lembrar: o mês é batizado em homenagem a Jano, deus romano das portas, das passagens. Ele tinha duas faces, colocadas de forma diametralmente opostas. Se ter olhos na nuca seria algo útil para evitar surpresas, esse era o caso. Janeiro nasceu sob suspeita e a égide da desconfiança sempre lhe mordeu os calcanhares.

Talvez seja essa a razão pela qual, mesmo gostando muito das festas de fim de ano, eu não confie em janeiro. Nem mesmo ele confia. Como comentávamos, terminamos o ano exaustos, seja pelo acúmulo de muitas frustrações ou por outro quinhão de metas cumpridas. Cumprir objetivos exige trabalho e isso cansa. Não conseguir fazer o que se tinha planejado cansa duas vezes mais. Vem dezembro (o antigo mês dez dos romanos), férias se avizinham, os feriados se impõem, mandatos terminam. Não há mais como fazer planos concretos, quando não há agenda para eles. 

Tente marcar uma consulta no médico em dezembro. “Não há agenda, senhor. O doutor volta a atender apenas no ano que vem.” Vale para o médico e para qualquer outra realidade. Ninguém mais pode nada a não ser no ano que se avizinha. Isso instiga em nós a ideia do ciclo que se acaba. Diante de um ano sem futuro, organizamos a retrospectiva e comemoramos o réveillon intensamente. Só nos resta celebrar um ano fresquinho, novo ciclo que se abre, 365 dias de agenda a ser preenchida, consultas que podem ser marcadas, sonhos que terão tempo de ser realizados. 

A rigor, nada muda. Do ponto de vista do universo, a convenção humana da passagem do ano não faz o menor sentido ou carrega a menor significância. Para nós, Sapiens, entretanto, é revigorante. Prometemos que seremos melhores, faremos mais ou diferente, criamos imensas expectativas.

Embora seja apenas um ritual, quando imerso na cultura que o gera, ele é importantíssimo. Para quem está de fora, não faz sentido. Apenas mais um dia terminou e outro começou (como bilhões de outros desde que a Terra surgiu). Para nós, renascimento. Sentem a ambiguidade fruto da perspectiva? Janeiro, com sua ambígua biface, surge depois do feriado do dia primeiro. Ou seja, hoje! 

E como está nosso rebento, o ano que nasceu? O que parecia novo, cheira a mofo. As promessas, para quem acreditou nelas, começam a se esfacelar. A certeza pétrea apresenta trincas grandes o suficiente para mostrar que sua estrutura está irremediavelmente abalada. Jano olha para o passado e vê que nossas intenções pareciam ser nobres no réveillon, mas não mudamos nossas condutas. Nossa ética (ou falta dela) não cruzaram o Rubicão entre a promessa e a realidade.

Depois, janeiro e seu patrono duas caras nos obrigam a olhar para o futuro e constatar que, dessa forma, não haverá mudança possível. Seremos mais uma vez nós mesmos. Sócrates queria que conhecêssemos a nós mesmos para entender as coisas como elas são. Mas foi Nietzsche quem, tomando a frase de Píndaro, deu uma volta a mais no parafuso e nos lançou o desafio que evitamos a todo custo em janeiro: “Torna-te quem tu és”. Mas isso dá uma preguiça... Ou, mais terrível, é tão mais difícil assumir que nosso futuro talvez seja a mesma mediocridade de sempre. 

Tomemos, pois, uma januária em homenagem a este janeiro e paguemos para ver se a ambiguidade do mês e do deus é também a nossa. É preciso ter esperança. 

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