Jane Fonda um lugar para amor e perdão

Aos 74 anos, ela está em filme no qual faz uma avó hippie, em série de TV e fala sobre carreira e netos

CINDY PEARLMAN , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h09

"Aí está, a coroa conseguiu enganá-los de novo", diz Jane Fonda. A atriz de 74 anos, vencedora de dois Oscars, ainda surpreende - principalmente os que acham que ela caminha para o declínio. "Meu segredo é o modo como encaro as coisas", afirma a estrela do novo filme Peace, Love & Misunderstanding (Paz, amor e mal-entendidos), que atua também na nova série da HBO The Newsroom (A redação). "Descobri que a gente pode ter uma vida sexual vigorosa, repleta de amor, em qualquer idade."

Uma das atrizes mais bonitas dos anos 60, quando estrelou filmes como Dívida de Sangue (1965) e Barbarella (1968), antes de mostrar seu talento interpretativo nos anos 70, e receber Oscars de melhor atriz por Klute - O Passado Condena (1971) e Amargo Regresso (1978), afirma que as pessoas valorizam de modo exagerado a juventude.

"Você pode ser jovem e perfeita de muitas maneiras, mas o que isto significa na realidade? Se à idade puder acrescentar amor, irradiará felicidade."

Quando jovem, Jane cometeu vários erros - durante alguns anos se defendeu pela controvertida visita ao Vietnã do Norte, em 1972, mas depois pediu desculpas - e agora diz que consegue analisá-los de uma perspectiva mais correta. "Todos cometem erros - o fundamental é que eles nos façam crescer."

Em Peace, Love & Misunderstanding, dirigido por Bruce Beresford e que será exibido inicialmente este mês em um número limitado de cinemas nos EUA, Jane é Grace, uma avó hippie que, hostilizada pela família durante anos, recupera o respeito quando a filha, prestes a se divorciar (Catherine Keener), surge em sua casa com os filhos para passar o verão.

Catherine é uma advogada que criou os filhos com rigor, portanto eles ficam espantados ao conhecer a avó, uma pessoa idosa, que tem amantes, fuma maconha e dá festas muito loucas. "Foi divertido; nunca tinha interpretado um hippie", informa.

"É um personagem aparentemente muito livre, mas descobri nela certa tristeza. Sob as aparências, há uma mulher que não via a filha há 20 anos nem conhecia os netos. "Adoro um filme com humor, mas sempre há necessidade de um pouco de tristeza. Também gosto de fazer com que os espectadores se sintam bem." E fala sobre o cinema de hoje. "Estou cansada de filmes que deixam as pessoas deprimidas diante de tantos efeitos especiais. Por que não falar sobre problemas importantes, como amor e perdão?"

A atriz, que teve um relacionamento conturbado com o pai, o grande ator Henry Fonda, achou que valia a pena explorar as relações entre pais e filhos em Peace, Love & Misunderstanding. "Tive problemas com meu pai. Agora, com mais idade, tento me corrigir na relação com meus filhos." Suspira, e prossegue afirmando que o filme também fala sobre a maneira como as pessoas envelhecem. "Gosto do fato de interpretar uma mulher que já passou dos 70 e tem seus amantes."

Série. Junho é um mês bem intenso para Jane, que tem papel de destaque na nova série da HBO The Newsroom, de Aaron Sorkin, que estreia dia 24. "Meu personagem é uma mescla de Rupert Murdoch e Ted Turner e dirige uma grande companhia. A redação é uma pequena parte do seu império. É uma série divertida."

Até que ponto ela se inspirou em Ted Turner, que, além de ser o fundador da CNN, foi seu marido? "É evidente que me inspirei um pouco em Ted. Minha experiência foi muito útil."

Em 1989, quando o casamento com o seu segundo marido, o ativista Tom Hayden, acabou, Jane deixou de atuar. Muitos previram que sua ausência seria breve, mas foi somente em 2005, quatro anos depois de se divorciar de Turner, que ela voltou às telas. "Deixei o cinema porque me sentia muito infeliz como mulher. Era difícil ser criativa enquanto meu casamento chegava ao fim. Então apareceu Ted Turner e não precisei trabalhar."

"Depois que este casamento acabou, escrevi meu livro de memórias. Quando terminei, me dei conta de que podia encontrar de novo a alegria de atuar."

Seu regresso foi no papel principal de A Sogra (2005), uma comédia com Jennifer Lopez. Não era o tipo de drama profundo pelo qual Jane se tornara conhecida, mas ela achou que era a escolha certo naquele momento. "Foi um filme muito bom e as pessoas adoraram. Muitos jovens foram vê-lo por causa de Jennifer, e imaginei que, dessa foram, uma nova geração acabaria me conhecendo."

A maturidade também lhe trouxe novas descobertas. "Quando a gente envelhece, a vida fica mais fácil se a gente é saudável." Especialista em atividade física - seus vídeos de ginástica se tornaram bastante populares na década de 80 -, continua com um corpo perfeito e elegante, e parece bem mais jovem do que é.

"Não temos outra opção senão envelhecer", prossegue, referindo-se a Prime Time: Love, Health, Sex, Fitness, Friendship, Spirit - Making the Most of All of Your Life (Random House, 2011). "Minha pesquisa me mostrou que várias pessoas acima dos 50 anos se sentem mais felizes. Precisam se preocupar só com o que realmente importa." E o que ela sugere às mulheres de 70 anos que querem ter uma vida saudável? "Manter-se fisicamente ativas", aconselha.

Jane não se importa em admitir que fez algumas plásticas. "Mas nunca tentei acabar com as minhas rugas. São o mapa da minha vida."

Ela tem dois netos e acha fantástico. "Ser avó é como uma segunda chance. E todos precisamos de uma segunda chance." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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