Jane Fonda, militante da alma feminina

Minha Vida Até Agora é aautobiografia de Jane Fonda, mas bem que poderia ser um manualde psiquiatria. A autora, agora com 69 anos, é obsessiva, filhade uma suicida, tem crise de identidade, distúrbios alimentares,problemas com a auto-imagem e baixa auto-estima, insiste natransferência da figura paterna e, enfim, não fosse ela acharmosa estrela de cinema, poxa vida, tudo isso seria um poucodemais para se ler antes de dormir. E tem também as passagens que chamaram muito a atençãoquando o livro foi lançado nos Estados Unidos no ano passado,quando Jane conta que participou de orgias nos anos 60, paraagradar ao então marido, o cineasta francês Roger Vadim - estas,sim, são boa leitura para antes de dormir. Mas muito fina, Jane não chega a dar detalhes das noitesem que dividiu sua cama com uma mulher trazida da rua por Vadim- aquele que, além de E Deus Criou a Mulher e Barbarella,passa para a história como o homem que se casou com CatherineDeneuve, Brigitte Bardot e Jane Fonda. Em vez disso, divertecontando que o melhor das orgias era mesmo ficar conversando coma parceira da noite anterior durante o café da manhã. "Para mim, isso era uma forma de trazer um pouco dehumanidade ao relacionamento", escreve a atriz. "Eu lheperguntava sobre si, tentando entender sua história e o motivopor ter concordado em compartilhar nossa cama."Desde a infância atribulada às divertidas filmagens de Barbarella São conclusões desse tipo, depois de grandes revelações,que fazem de Minha Vida Até agora (Record, 644 págs., R$ 6990) um livro que soa tão verdadeiro. Jane conta a infânciaatribulada que teve, filha de um pai ausente - o astro HenryFonda - e de uma socialite com graves problemas psiquiátricos -Frances Seymour, que cortou a garganta com uma navalha quandoJane tinha apenas 12 anos. Explica como se tornou bulímica, para se enquadrar nofamoso e terrível padrão magérrimo, até sair do controle. Lembraos tempos divertidos das filmagens de Barbarella, a fantasiacult de Vadim, e surpreendentemente confessa que se comparouvárias vezes - e para pior - com Brigitte Bardot. Relata aviagem, em missão de paz e contra o governo Nixon, ao Vietnã, emplena guerra. E abre os bastidores dos vídeos que atransformaram no mito da ginástica nos anos 80. Militante por definição, seja a causa que for, Jane vê aautobiografia como uma maneira de ajudar outras mulheres arefletir sobre suas vidas. Talvez por isso, ela tenha detalhadotanto as passagens em que se submeteu aos caprichos de seusmaridos, fazendo de tudo para ser querida - atire a primeirapedra quem nunca torceu pelo Corinthians por estar namorando umcorintiano ou não virou habitué de cineclubes bolorentos paraagradar a um certo estudante de cinema charmoso da ECA.

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