Jane: ''aqui estou eu''

Aos 73 anos, atriz não desperdiça tempo e fala de vivência, amor, teatro e planos para TV, cinema, blog...

Deborah Vankin, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2011 | 00h00

  Ao fazer as honras da casa, um imóvel dos anos 1940 na encosta de uma colina, que Jane Fonda divide com o namorado, o produtor musical Richard Perry, ela explica sua mais recente quebra das convenções: a vida a dois do casal. "Nunca imaginei que eu estaria aqui a esta altura da minha vida - aos 73 anos, convivendo com uma pessoa do mundo da música", e ri. "E no entanto, aqui estou eu."

O "aqui", para Jane Fonda, é um ambiente fervilhando de gente e de novos projetos. Instalado em uma poltrona, o cachorrinho branco de Jane, Tulea, se aninha ao lado dela, enquanto ao seu redor as pessoas falam sobre listas de coisas para fazer. A atriz, pensativa, estuda cuidadosamente cada pergunta e dá a resposta com incisiva segurança. A sensação que se tem é que, se ela achasse estar perdendo tempo, poderia deixar a conversa morrer. Está ocupada demais para desperdiçar um minuto sequer.

Em primeiro plano estão as realizações profissionais. Ela acaba de encerrar a temporada da peça 33 Variações, de Moisés Kaufman, no Ahmanson Theatre e de lançar vídeos com aulas de ginástica para as pessoas que chegam agora à terceira idade e para os mais idosos. E há ainda o seu blog; um livro sobre a melhor maneira de envelhecer, cujo lançamento está previsto para setembro, dois filmes que acabam de ser concluídos e uma retrospectiva cinematográfica no Museu do Condado de Los Angeles.

A peça 33 Variações, principalmente, significa para ela a conclusão de um ciclo. Reflete em grande parte o que ela pensa sobre realizações em uma idade mais avançada. Apresentada na Broadway, marca a sua volta aos palcos depois de 46 anos. Ela garante que enfrentou o retorno com naturalidade. "Não fiquei com medo. Gosto de desafios. Meu pai (o ator Henry Fonda) adorava teatro, a resposta imediata e a reação do público. Então (ao voltar para o palco) eu queria a chance de representar o que estava sentindo no corpo e na mente e descobrir o que meu pai experimentara."

Antes de 33 Variações, Jane atuou em apenas quatro peças. "Nenhuma delas foi uma vivência gratificante para mim", afirma. Sua estreia na Broadway, em 1960, em There Was a Little Girl, lhe valeu uma indicação para o Tony; mas a experiência foi traumática. Duas noites antes da estreia da peça, o ator que contracenava com ela foi demitido; dois dias mais tarde, o ator que interpretava o papel do seu pai teve um ataque cardíaco e morreu; e duas noites depois disso, o diretor da peça teve um esgotamento nervoso.

Por que então Jane continuou atuando no teatro: "Para ganhar dinheiro." No entanto, com o passar do tempo, sua relação de atriz com o material que recebia, e não com o dinheiro, a levou a procurar bons projetos, desde o drama da era da Guerra do Vietnã (1978), Amargo Regresso, a Num Lago Dourado (1981), em que trabalhou com o pai. 33 Variações não foi uma exceção, com seu tema que fala de curiosidade, paixão e obsessão criadora, da busca pela perfeição na arte e do afastamento da família.

O dramaturgo venezuelano Moisés Kaufman ficou impressionado com a ética de Jane Fonda em relação ao trabalho. "Ela se empenhou com afinco e concentração. Tem aquela garra que faz com que queira mergulhar cada vez mais no personagem e compreender profundamente o que realiza. É uma verdadeira artista."

Jane também ficou satisfeita com sua atuação, que definiu como interiorizada. O que também parece ótimo para ela é o trabalho com o blog, que ela realiza desde que ensaiava 33 Variações, dois anos atrás.

Bastidores. Ícone feminista (prefere "exemplo"), duas vezes laureada pela Academia, ativista, produtora, guru da boa forma, dedicada a obras filantrópicas e também escritora, mais uma vez Jane Fonda se redefine neste momento no espaço social midiático. Seu blog (janefonda.com) é, surpreendentemente, um trabalho de peso; ela jura que escreve cada postagem e lê todos os comentários.

"Estava frustrada porque não compreendia o que é blog, Facebook e Twitter." Então, como é característico dela, se atirou com uma determinação irrefreável para entender esse universo, escrevendo no blog durante toda a primeira temporada da peça, às vezes nos intervalos. "Aprendi muito sobre a minha atuação com o feedback que recebia das pessoas que me enviavam seus comentários."

Jane está estudando a possibilidade de fazer outra peça, ou um filme, mas o que ela quer mesmo, agora, é a TV a cabo. "Acho o seriado Nurse Jackie, de humor negro, incrível. Gostaria de encontrar o modo de expressar, numa série de TV, como é ser uma mulher da minha idade no mundo de hoje." Jane Fonda está definitivamente de volta - na tela, na internet. Mas é impossível dizer para onde ela vai agora. "Estou feliz por afirmar que ainda me sinto uma obra em formação. Acho que é assim que a vida deve ser, até o fim." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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