Janaina nos devolve com afeto dias felizes

Assim que entramos, sorrimos. No quadro negro, Janaina Rueda avisa: "Daqui para a frente, somos responsáveis pela sua felicidade." Ela cumpre o prometido. Nunca saímos do Bar da Dona Onça sem um sorriso, sem nos sentir leves, depois da comida, seguida por uma cachacinha de primeira ou do ameno leite de onça. Desde meus primeiros dias em São Paulo, e lá se vão 55 anos, tenho paixão pelo centro, vivi seu esplendor, sua decadência, sua retomada. Tenho paixão por aquelas ruas, lugares, edifícios, cantos, recantos, pracinhas. Hoje, no centro, sobrevivem três restaurantes aos quais, a meu ver, claro, se pode ir com segurança de comida e bom atendimento: La Casserole, Gigetto e Dona Onça. Os dois primeiros têm tradição, o outro chegou para restaurar imagens perdidas. Alguém me sussurrou: e os Mancini? Esqueçam, nada a ver.

O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 03h09

Dona Onça está no Copan, mítico edifício desenhado por Niemeyer. Deviam tombar o Copan. Pela arquitetura e pelos que ali moram ou moraram. Um é o Pedro Herz, da Livraria Cultura, o homem que desmente uma "verdade" dita e repetida: livro não dá. No Copan morou Madalena Schwartz, lenda entre os fotógrafos paulistanos e brasileiros. Mulher afetuosa, por quem todos queriam ser retratados. Veja seu livro Crisálidas, recém-editado pelo Instituto Moreira Salles, obra-prima que retrata como ninguém o que foram os anos 70. Ali moraram também Ítala Nandi, na fase áurea do Teatro Oficina, e Sérgio Viotti. Poucos imaginam o que seja a visão panorâmica do terraço do Copan. São Paulo se oferece inteira.

Num domingo de muito sol, desci ao centro. Estava só. Entrei no Dona Onça, pedi um Mojito, enquanto decidia a comida e relembrei Havana, no ano de 1978, quando lá estive e a revolução era algo a se ver, viver, sentir. Aquela foi uma tarde de memórias afetivas. Já havia passado pela Praça Roosevelt, onde morei por dez anos, e senti a diferença. O sombrio e o lumpem se dissolveram.

Percorri o cardápio e escolhi um prato simples: arroz, feijão, couve, ovo frito e linguiça de porco caseira. Nada mais complexo do que um prato simples. A textura, o sabor, o tempero, tudo tem de ser equilibrado. Assim que o meu chegou, e provei um pedaço da linguiça, vi sentarem-se à minha frente minha avó Branca, mãe de meu pai, e a tia Mariquinha, mulher de meu tio-avô, Juca Maria, lá de Vera Cruz. Elas se foram há dezenas de anos, mas zelam por mim.

As duas contemplaram o prato, olharam uma para a outra e sorriram. Como se dissessem: "Este mocinho moderno pensa que vai comer o que já comeu, quando éramos nós que fazíamos". O mocinho moderno sou eu, nesta venturosa idade de 76 anos. A primeira garfada da linguiça, misturada à couve e ao arroz, e com um toque de pimenta Comari, me fez levitar. Senti a felicidade pairando. Vovó e tia Mariquinha olhavam: "Não pode ser igual ao nosso!" Disse que sim, era o mesmo sabor, o tempero, e a memória afetiva me levou àquelas mesas de infância e juventude, quando tudo era feito no fogão a lenha. Elas exultaram: "O mundo não está perdido!" Garfada por garfada, mergulhei em tempos que se foram e compreendi o que Janaina faz. Recupera uma cozinha, uma culinária que parecia perdida. Arqueologia e atualidade.

Resgata com sofisticação, de maneira que me delicio ao encontrar/reencontrar meus pratos. Ali, minha mulher - outra geração - lambe os beiços. Minha filha, muito mais nova, se regala. Janaina refaz tudo, mantendo gosto, sabores e cheiros. Antigo e atual. Antigo e futuro. O passado permeia, mas é puro presente.

Houve época em que havia poucos chefs com um picadinho tão perfeito quanto o do Clubinho dos Artistas, junto do Instituto dos Arquitetos, e o do Baiuca, na Praça Roosevelt. Imbatíveis. Os dois fecharam, mas redescobri o mesmo picadinho no Dona Onça e ali me refaço e permaneço. Não sinto falta de nada do passado, em questão de sabores. Eles me acompanham, me procuram.

Acho que há pessoas felizes. Janaina Rueda é uma delas. Tenho certeza de que ela se ilumina ao nos contemplar diante de sua comida. Feliz é quem faz os outros felizes. Quem cuida da alegria e bem-estar dos outros. Como tenho um primo-irmão gourmet, grande cozinheiro, o Zezé Brandão, comentei com ele sobre aquele momento feliz. Ele me respondeu: "Tenho pelo Dona Onça e, portanto, pela Janaina, o mesmo afeto. Ela refaz, na cozinha, o tempo que passou. E nada é mais terno, mais generoso, mais delicado do que devolver ao outro a memória de dias felizes, ainda que supostamente felizes - a lembrança diz o que fomos e revivê-la diz o que somos (afinal, se lembramos é porque nossa humanidade está preservada - as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão)".

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