Jams, desabafo e festa

Logo no primeiro verso, abrindo o disco, Jill Scott canta: "Este é o último take da noite". Em seu duplo significado, a frase dá conta de resumir a pegada de The Light of The Sun, quarto trabalho de inéditas da estrela do R&B. No plano artístico, mostra que a cantora optou por reproduzir ao máximo o clima de estúdio, com suas jams e improvisos. O segundo sentido é o teor autobiográfico da obra: a senhora Scott é mãe recente, quer ir logo para casa cuidar de seu bebê. Mas não foi só a experiência materna que ajudou a compor este inspirado manifesto introspectivo. Um conturbado divórcio e um rápido romance também mexeram com a cabeça da artista americana nos últimos anos. Na minimalista Quick, ao melhor estilo spoken-word, um misto de incredulidade, raiva e dor: "Você se mudou para minha casa, me deu um filho", canta. Na suingada Shame, o tom é de superação, quase um grito de guerra: "Sou a rainha no trono, sou magnífica". Ao lado de Anthony Hamilton, Scott flutua segura pelo soul setentista com So In Love, candidata a hit de rádio. O voo mais audacioso é provado em All Cried Out Redux, com direito a um piano honky-tonk e o ligeiro beatbox do rapper Doug E. Fresh. Sem ficar presa aos clichês da old-school, tão em voga na cena neo-soul, Jill Scott incorpora o jazz e o rap para um vocal corajoso, na fronteira entre o cantado e o falado.

Emanuel Bomfim, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2011 | 00h00

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