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James Gandolfini lutava contra Tony Soprano, revela livro

Leia trecho de 'Homens Difíceis', de Brett Martin

Clarice Cardoso, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2014 | 21h27

No livro Homens Difíceis - Os Bastidores do Processo Criativo de Breaking Bad, Família Soprano, Mad Men e Outras Séries Revolucionárias, o jornalista Brett Martin identifica o movimento revolucionário iniciado por Família Soprano nas séries de TV.

Em primeiro lugar, por conta dos protagonistas ambíguos e desafiadores, que logo se espalhariam pelas telas. Em segundo, pelo fortalecimento da figura dos showrunners. Após conviver com eles nos sets e de longas entrevistas, ele conta um pouco sobre os bastidores dessas produções, como as crises de James Gandolfini para dar veracidade à sua interpretação do mafioso Tony Soprano. Leia um trecho a seguir:

"Para Gandolfini, era outra história. Interpretar Tony Soprano sempre exigia dele, em alguma medida, ser Tony Soprano. A equipe do programa tinha se acostumado a ouvi-lo xingar e rosnar em seu trailer, enquanto ensaiava o tom emocional de alguma cena, destruindo, por exemplo, um aparelho de rádio. Sendo um ator inteligente e intuitivo, Gandolfini compreendia essa dinâmica e, às vezes, usava-a em seu benefício. O pesado roupão de banho, que se tornou a assinatura de Tony e o transformava em uma espécie de urso domesticado, era mortal à luz dos refletores no auge do verão, mas Gandolfini insistia em continuar vestido com ele entre as tomadas. Em outras ocasiões, contudo, a simulação de um momento infeliz tornava-se indistinguível da coisa real, no set e fora dele. Nos documentos relativos ao divórcio iniciado no final do ano de 2002, a esposa de Gandolfini descrevia problemas cada vez mais sérios envolvendo uso de drogas e álcool, além de brigas com o ator nas quais ele repetidamente socava o próprio rosto, tomado por uma intensa frustração. Para qualquer um que tivesse presenciado a raiva do ator contra si mesmo quando lutava para lembrar suas falas diante da câmera -- ele se criticava com veemência, enojado de si mesmo; amaldiçoava-se e batia na parte de trás da própria cabeça --, era muito possível que aquelas coisas realmente acontecessem.

Não ajudou muito o fato de uma pessoa naturalmente tímida como Gandolfini de repente ter se tornado um dos homens mais reconhecidos dos Estados Unidos, principalmente em Nova York e em Nova Jersey, onde o programa era gravado e onde vê-lo caminhando por uma rua, digamos, fumando um charuto, era garantia de causar tumulto entre pessoas já propensas a gritar o nome dos personagens de ficção para as pessoas reais. Diferentemente de Edie Falco, que era capaz de se desvencilhar das unhas de Carmela pintadas à francesinha, enterrar um boné de beisebol na cabeça e desaparecer no meio da multidão, Gandolfini -- com seus 1,80 metro e pouco mais de 120 quilos -- não tinha como se esconder.

Tudo isso já vinha cobrando um preço alto bem antes daquele inverno de 2002. As repentinas recusas de Gandolfini a ir trabalhar tinham se tornado um fato quase regular. Seus acessos eram passivo-agressivos: ele alegava que estava doente, recusava-se a sair de casa -- um apartamento em Tribeca -- ou simplesmente não aparecia no estúdio. No dia seguinte, inevitavelmente, ele se sentia tão arrasado com esse comportamento e com as substanciais complicações logísticas que sua ausência tinha causado -- algo equivalente a manobrar um porta-aviões -- que precisava agradar todo mundo e vinha carregado de presentes extravagantes para o elenco e a equipe técnica. Como disse um membro da produção, 'de repente aparecia um chef de sushi para o almoço, ou todo mundo ganhava uma massagem de presente'. Finalmente, todos os envolvidos no programa acabaram entendendo que isso fazia parte do preço de estar naquele trabalho, a compensação por terem um Tony Soprano tão notavelmente intenso e plenamente habitado por Gandolfini."

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