James Ellroy faz estilo nada sério

Um sujeito magro, ruivo e despenteado (para não falar de sua roupa) segura o microfone com dificuldade. É impossível dizer se treme tanto em virtude do que bebe, do que vê ou do que fará: prepara uma pergunta para um de seus ídolos, talvez o último vivo entre os escritores, desde que o beatnik Gregory Corso foi desta para pior, no início deste ano. Ele gagueja, atrapalha-se, mas consegue terminar: "Monsieur Ellroy, o que você achou da versão para o cinema de Los Angeles - Cidade Proibida?"O sr. James Ellroy dá uma resposta curta, como de hábito dessas que não enchem três linhas de jornal. Em Paris, onde esteve para lançar sua mais recente obra, American Death Trip (Rivages, 850 págs., US$ 20), disse a uma platéia atenta, durante um café literário, que gostou e que o filme reproduziu a essência do romance. O fã não se contentou. Está convicto de que Ellroy foi traído: "Li o livro; para mim, faltou muita coisa.""Sim, falta muita coisa, mas isso é porque ainda não se fazem filmes de 36 horas; seria um desastre para a economia norte-americana, acredite, se todos faltassem ao trabalho para passar três dias nas salas de cinema."American Death Trip é o segundo romance de uma trilogia que Ellroy prepara sobre a história recente do seu país iniciada com Tablóide Americano. O novo romance foi lançado na França antes da publicação nos EUA. "Só depois da França me avalizar, comparando-me a Horace McCoy e Dashiell Hammet, é que passei a fazer um enorme sucesso nos EUA também."O livro não tem, ainda, editora no Brasil, mas é bastante provável que seja lançado pela Record, que vem publicando suas obras no País recentemente. Começa logo após a morte do presidente John Kennedy, em 1963, e termina com os assassinatos do líder negro Martin Luther King e de Robert Kennedy, em 1968. Aí deve começar o terceiro volume, que se estenderá até o caso Watergate.Se esses fatos são reais, e que o romance esteja povoado de figuras que são bastante conhecidas nos EUA, com J. Edgar Hoover, do FBI, pouco importa. Ellroy se recusa a dizer o que é e o que não é ficção em suas obras . Apesar disso, acredita que sua versão para a morte de Kennedy é bem melhor que a de Oliver Stone, em seu filme JFK. "Só que eu nunca escondi que fazia ficção."E, afinal, quem matou Kennedy? Para Ellroy, há um submundo povoado por mafiosos, agentes do FBI, dançarinas de strip-tease, fanáticos religiosos, direitistas raivosos e vigaristas os mais variados que tramou o crime. "A conspiração não é o coração do meu romance; o centro da história é uma espécie de infra-estrutura humana dos grandes eventos públicos, especialmente nesses anos tumultuados da história norte-americana", afirma ele, antes de seguir contando piadas sobre seu editor francês. "Todos sabem que ele é amante de Juliette Binoche, embora eu não devesse dizer isso em público." Quem olha o editor, bonachão, balançando um gordo dedo indicador sabe que não é possível ser verdade.Ellroy considera-se o melhor escritor do gênero policial vivo, embora afirme que, com a trilogia, deixou o gênero - "Sou agora um autor de romances históricos." Não gosta de indicar suas influências, mas, em Paris, durante a conversa, no Salão do Livro, citou de Balzac a Don Delillo. Acha que por trás de toda fortuna e história política há um crime; e foi Delillo quem o motivou, com suas obras, a escrever a trilogia.Eleitor de George W. Bush, Ellroy conseguiu, apesar disso, arrancar aplausos dos franceses quando afirmou que se opõe à pena de morte. Acredita que "ela não funciona" e diz que os exames de DNA tiraram do corredor uma quantidade considerável de supostos criminosos. Foi um dos raros momentos em que falou seriamente, e mesmo nesse momento, não quis, exatamente, agradar. Seduziria mais se dissesse que não acha que o Estado tem o direito de tirar a vida de ninguém, por exemplo.Os grandes momentos de Ellroy junto ao seu público, portanto, não são aqueles em que fala sério, mas os que reserva à criação de teorias as mais absurdas. Como, por exemplo, a explicação para o fato de "JFK ter morrido na hora certa": "Kennedy era a mulher. Os EUA eram o homem. Ela morreu quando ele ainda estava apaixonado." Para Ellroy, quando a mulher envelhece, a paixão acaba: "Sem sexo, quem se importaria com Kennedy?" O estilo de Ellroy pode, assim, ser descrito com as mesmas palavras que ele próprio usou para definir American Death Trip: "Frases curtas. Bam! Bam! Bam!"

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