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James Cotton canta a memória da gaita

Lendário bluesman que acompanhou Howlin' Wolf e Muddy Waters faz show e lança disco em que repassa sua vida

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2013 | 02h18

Talvez o maior gaitista do blues vivo (os fãs de Charlie Musselwhite vão chiar, mas é só uma opinião), músico das bandas de Muddy Waters e Howlin' Wolf, o bluesman James Cotton, de 78 anos, passou por uma cirurgia na garganta para retirar um câncer em 1994 e estava há muito tempo só tocando a gaita. Nada de soltar a voz em um microfone.

Mas no seu novíssimo disco, Cotton Mouth Man (Alligator Records), que acaba de sair nos Estados Unidos, o ouvinte que começar pela última faixa vai ter uma surpresa: James Cotton ressurge cantando, na canção Bonnie Blue. Trata-se de um esforço descomunal: a voz de Cotton parece o ronco de um leão faminto, e ele falou por telefone ao Estado, de Austin, Texas, com Jacklyn, sua esposa, ali do lado no viva-voz (ela o ajuda "traduzindo" aquilo que fica incompreensível para o interlocutor).

Então, mesmo fora de condições, porque Cotton ainda assim quis cantar uma canção no seu disco? É ele mesmo quem explica. "Bonnie Blue é o nome da fazenda onde eu nasci, na cidade de Tunica, no Mississippi. Nesse meu disco inteiro eu conto um pouco a minha história, e esse é o início de tudo, numa fazenda do Mississippi", ele conta.

A letra é um hino épico: "Aprendi com Sonny Boy/Com ele e também com Howlin' Wolf/Doze anos com Muddy Waters/E eu soube o que tinha de fazer/O Pai Tempo me lapidou/Minha juventude há muito se mandou/Olho no espelho toda manhã/E me vejo encarando a verdade".

Em Cotton Mouth Man, ao longo das faixas, com a ajuda luxuosa de convidados como Keb Mo, Gregg Allman, Joe Bonamassa, Warren Haynes, Ruthie Foster e Delbert McClinton, Cotton faz a arqueologia de uma carreira em sintonia com seu tempo no planeta.

Ex-caminhoneiro, ele perdeu os pais aos 9 anos e foi "adotado" artisticamente por Sonny Boy Williamson, uma das lendas da música (menino, ele ouvia Sonny Boy no rádio e aprendeu a imitá-lo, impressionando até o ídolo). "Ele percebeu que eu tinha um talento natural e me incentivou, dando-me as primeiras chances", contou. Sonny Boy lhe ensinaria "como fazer o cerco às mulheres, como beber e como tocar o blues".

Em 1954, chegou a Chicago e Muddy Waters o alistou em sua banda, na qual ficaria por mais de uma década. Com Howlin' Wolf, esteve tocando durante dois anos. Mas, nas gravações de Muddy Waters, a Chess Records costumava escalar o lendário gaitista Little Walter. Isso empurrou James Cotton para os shows ao vivo, nos quais construiu sua reputação. Em 1960, sua performance solo na música Got My Mojo Working, no Newport Jazz Festival, foi aclamada e virou uma referência de gravação ao vivo.

Em sua fase mais incendiária, Cotton abriu shows de rock de Janis Joplin, Grateful Dead, Led Zeppelin e Santana. Em 1996, ganhou um Grammy por Deep in the Blues, e foi indicado para o Blues Hall of Fame de Memphis em 2006.

Na internet, é possível vê-lo tocando e improvisando com Keith Richards, dos Rolling Stones, há dois anos. James Cotton contabiliza a gravação de 34 discos em sua carreira. "Mas é uma estimativa", adverte. "Minhas improvisações contêm bom humor e diversão porque é isso o que está vindo de minha alma. Minha música é a expressão do que eu sinto", diz .

"O bluesman James Cotton teve o tipo de vida da qual eles fazem filmes a respeito", escreveu o Chicago Tribune a respeito do gaitista. Ele só não gosta dos superlativos. "Não sei dizer quem é o melhor gaitista da atualidade. Quem fala isso de mim são as pessoas. Eu gosto, é claro, mas eu não sou arrogante, não posso dizer isso de mim mesmo", afirmou Cotton.

O gaitista vem com seu grupo Superharp Band, que é integrada pelo vocalista Darrell Nulisch; pelo guitarrista Tom Holland; pelo baixista Noel Neal e o baterista Jerry Porter. "Tom Holland toca comigo há 10 anos. Noel toca comigo há 12 anos. Darrell já me acompanha há uns 15 anos. Quanto mais você conhece seus músicos, mais natural sai a música", conta o gaitista. Eles farão shows no Sesc Belenzinho, em São Paulo, nos dias 26 e 27; antes, passam por Porto Alegre (dia 23), e Caxias do Sul (RS), dia 24. Para encerrar a turnê, Cotton toca na saideira do Ilha Blues Festival, na Ilha Comprida, no dia 28, domingo.

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