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James Blake fala sobre o seu diálogo entre a canção e o dubstep

Músico inglês faz apresentação no festival de música Sónar neste final de semana em SP

ROBERTO NASCIMENTO - O Estado de S.Paulo,

10 de maio de 2012 | 03h08

A ascensão meteórica de James Blake, de ás dos beats a pop star autoral é um caso notável. Entre 2009 e 2011, o jovem produtor inglês, de 24 anos, operou um crossover corajoso, assimilando a linguagem esparsa e fragmentada do dubstep para depois abdicar do status cult que seus primeiros EPs lhe concederam e arriscar-se em um híbrido acessível de bass e soul music. Em menos de dois anos, Blake foi de estrela da rádio underground Rinse FM a headliner de festivais. Ficou em segundo lugar na categoria revelação do prêmio Mercury, o Grammy britânico (perdeu para a diva teen Jessie J), e emplacou um disco entre os dez mais vendidos do país. Isto, sem fazer concessões.

"Sempre cantei, desde pequeno. Tocava ukulele, depois fui para o piano e o violão. Por isso, essa mudança ocorreu de forma natural para mim", conta Blake, que toca sexta e sábado no festival Sónar (um DJ set e uma apresentação com sua banda) em entrevista ao Estado. A mudança de qual Blake fala é a gradual transformação estética de beats que desde o início já traziam inflexões de soul music (vide seu primeiro single, Air And Lack Thereof, de 2009) em canções de melancolia recatada, feitas nos moldes tradicionais. Enquanto seus primeiros EPs - entre eles o excelente CMYK - despertavam o interesse da crítica especializada com cenários desconstruídos, vozes picotadas, ritmos quebrados e um inteligente uso de espaço negativo, Blake buscava elementos básicos.

A guinada não passou despercebida pelos detratores. Próximo ao lançamento do seu trabalhado primeiro disco James Blake, de 2011, Geoff Barrow, um dos cabeças do influente Portishead, declarou em seu Twitter que Blake talvez indicasse o início de uma fase em que as aspirações vanguardistas da música de pista britânica fossem diluídas em canções de boteco.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o músico mostrou-se despreocupado. "Quando fiz o disco, pensei: Será que aquele some está no lugar certo do panorama sonoro? Aqueles blips improvisados que deixei lá, funcionam? O espaço entre as letras de Lindisfarne é muito grande? Nunca pensei: 'Isso aqui vai soar bem no rádio'", contou.

Embora a trajetória possa indicar o tipo de ganância artística que causa ódio e inveja em puristas do underground, a sonoridade emotiva alcançada por Blake no disco não deixa dúvidas quanto à sua sinceridade autoral. Quando canta There's a Limit To Your Love, seu famoso cover da cantora Feist, Blake se equilibra com sutileza entre a confissão e o lamento, um eco contemporâneo da vertente de black music conhecida como mellow soul (o termo é usado pelo músico e crítico David Toop, da revista Wire, para descrever aspectos da obra de Marvin Gaye, Teddy Pendergrass e Patti LaBelle).

O próprio interesse pela música eletrônica se deu de forma natural. Blake cursava artes liberais na Goldsmith University, do sudeste de Londres, e começou a frequentar a famosa boate Plastic People, cuja noite FWD é considerada o berço do dubstep londrino. "Eu me interessava por produção, mas não sabia de certo o que era. Queria fazer música. Então, aos poucos comecei a discotecar. Nunca havia percebido o quão gratificante é a discotecagem. Quão divertido e musicalmente excitante ela pode ser", contou ao Estado.

Blake começou a produzir em seu dormitório de faculdade, depois do expediente. Escrevia letras no trem a caminho de casa. Ouvia os graves do dubstep e buscava imitá-los, embora desde o início, sua combinação de acordes ao piano com a linguagem já desse um aspecto distinto à sua música. "Tenho usado mais o piano. É certamente um caminho que continuo a trilhar", conta, sobre o EP Love What Happened Here, lançado ao fim de seu ano triunfante.

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