Jam session

Pearl Jam Twenty, documentário de Cameron Crowe, captura a alma de uma era

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h08

Há exatos 20 anos, Nevermind, a obra-prima de Kurt Cobain, chegava às lojas. Por ter transformado o grunge em febre internacional, tornando-se o grande símbolo do rock noventista, o disco leva o prêmio de efeméride do ano. Mas o espírito da época, e da cena que revelou o Nirvana - assim como o Soundgarden e o Alice in Chains - está encarnado na comemoração de uma data menos badalada: os vinte anos do Pearl Jam, lembrados no cativante documentário de Cameron Crowne, Pearl Jam Twenty, que foi exibido na terça-feira.

Curiosamente, o filme será lançado diretamente em DVD, no final de outubro e foi mostrado apenas por uma noite, em apresentações pelo mundo afora. PJ20 acompanha a trajetória da banda, que vem ao Brasil em novembro, desde os primórdios, na efervescente cena de Seattle, ao sucesso relâmpago, às crises, aos embates e, finalmente, à fase madura. É um filme fascinante, um eufórico salto de crowdsurfing pelos anos que marcaram o apogeu do rock alternativo, concebido com a eletricidade de um riff grunge.

Os primeiros 50 minutos fazem um tour pela cena de Seattle, traçando, através de entrevistas e registros da época, um panorama do underground mais famoso da década. A ética DIY (faça você mesmo), a batalha para desenvolver uma sonoridade original, que se sustentasse perante os sons que vinham de Los Angeles e de Nova York. Tudo isso é Crowe, diretor de Jerry Maguire e Vanilla Sky, jornalista prodígio, morou em Seattle nos anos 80 e teve acesso a mais de duas mil horas de registros do Pearl Jam, além de entrevistas com Cobain e Chris Cornell, do Soundgarden. A transparência dos depoimentos de Cornell retrata vividamente a relação amistosa entre o Soundgarden e o Pearl Jam e ilumina a morte por overdose de Andy Wood, líder do Mother Love Bone, banda que serviria de base para o Pearl Jam. Wood morre, os integrantes de sua banda distribuem uma demo sem vocais, que cai nas mãos de um surfista californiano de amídalas douradas. Eis que surge Eddie Vedder, o protagonista. Crowe aborda a ascensão imediata, impulsionada pelo essencial disco Ten, que traz os hits Once, Alive, Black e Jeremy.

Registros de shows da época retratam a pegada demolidora da banda. Seleções do acervo da MTV mostram a tietagem e a obsessão pela banda. Um Eddie Vedder sincero, tanto em entrevistas da época quanto em depoimentos recentes, faz elucubrações sobre o vendaval da fama e sobre a sensação de ser uma banda underground empurrada sob os holofotes repentinamente, um calvário ao qual o Nirvana foi igualmente submetido. A rivalidade entre as duas maiores bandas do grunge é ilustrada com entrevistas em que Cobain maldiz Vedder. Depois de Cobain voltar atrás, um abraço entre os dois numa festa da MTV é um dos momentos mais marcantes do documentário. Sintetiza o rock de uma época que se mostra cada vez mais importante com o passar dos anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.