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Ignácio de Loyola Brandão
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Jacqueline Myrna, o mito, ressurge. E é avó

Há décadas um mistério permaneceu: onde estará Jacqueline Myrna? As novas gerações não têm ideia de quem foi. Porém, a turma acima dos 60 lembra-se bem. Loira, sensual, pernas magníficas, um riso estonteante. Estou usando palavras e denominações da época. Durante anos, Jacqueline foi presença entre as Certinhas do Stanislaw Ponte Preta, humorista que o Brasil não pode esquecer e que dava tacadas certas. Tanto nas mulheres quanto na política. Desafiou a ditadura militar com seu Festival de Besteiras Que Assola o País. Hoje, Lalau, como também era chamado, ia rolar e deitar. Ou deitar e rolar, como queiram.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

06 Março 2015 | 02h06

Jacqueline Myrna era uma estrelinha de televisão. Esteve na Record (A Praça da Alegria), na TV Rio (Times Square), na Excelsior, fez shows, filmes, novelas. Sucesso imenso, era o tipo da ingênua simpática, provocante e maliciosa. Famosa ao pronunciar a palavra Araraquara com sotaque francês. Arrrrrrrarrrrrraquarrrrrra. Tornou-se um bordão. Muitas vezes, eu chegava a uma cidade e quando me apresentava como nascido em Araraquara, todos sabiam, imitavam Jacqueline. Eu me divertia, ela era minha amiga. Outro bordão foi "Os brasileirrrrrrrros são tão bonzinhos", reaproveitado por Kate Lyra.

Ao contrário do que muitos pensavam, Jacqueline não era francesa, era romena. Por anos, aquele estrelinha bonita, sensual, foi sonho e desejo de muitos. Diziam que era a Brigitte Bardot brasileira, ainda que o título pertencesse, na verdade, a Norma Bengell, que viveu BB no filme O Homem do Sputnik, de Carlos Manga. Lembro-me de um show - ou teria sido algo precursor do videoclipe, antes da febre dos videoclipes - em que Jacqueline estava de pé, com um vestido branco vaporoso que subia, batido pelo vento, revelando suas coxas monumentais (como se dizia). Cópia da cena vivida por Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado, de Billy Wilder. Estourou. Ainda não havia rede social, nem YouTube, mas hoje a cena pode ser acessada na internet. Claro, por gente de "certa" idade.

As mulheres não conseguiam detestar Jacqueline, porque ela era maliciosa, com um riso aberto, franco, convidativo. Ao mesmo tempo que excitava, não parecia ameaçar, havia nela uma barreira natural, um alerta: não chegue, não adianta. Em 1968, ela foi a Araraquara a convite de Aldo Comito, presidente da Ferroviária. Deu o pontapé inicial em um jogo daquele time, então no auge, que enfrentava os grandes - até o Santos de Pelé, pau a pau. Jacqueline desfilou em carro aberto, "saudada pela multidão", como se noticiou. Era tudo diferente. Nem havia segurança e ninguém tentava nada. Ela esteve na cidade uma segunda vez para participar de um festival de cinema organizado por um jovem jornalista, mais tarde publicitário, José Roberto Bueno.

Jacqueline fez filmes e lembro-me de Riacho de Sangue, produção de Aurora Duarte, também atriz, revelada por Alberto Cavalcanti. No elenco, havia outra mulher classuda, Gilda Medeiros, ex-Miss Pará, que se tornou modelo. Jacqueline foi dirigida duas vezes pelo mais exigente diretor do cinema brasileiro da época, Walter Hugo Khoury. Em um episódio de As Cariocas e no longa As Amorosas.

Falava-se muito de Jacqueline, corriam atrás para saber de um romance, um caso, uma fofoca, escândalo e nada. Era vigiada a ferro e fogo por mamãe Margaret. Quando terminava um programa na TV Excelsior, Canal 9, em vez de ir para o Gigetto, point de todos, em frente à emissora, na rua Nestor Pestana, Jacqueline voltava para casa, a uma quadra, na esquina da rua Augusta com a praça Roosevelt. Os jornalistas adoravam os almoços ou jantares com especialidades romenas que Margaret oferecia cada mês. Os convites eram disputados. Tudo isto entre 60 e 70.

Um dia, começo dos anos 70, onde está Jacqueline? Desapareceu. Dissolveu no ar. Nenhuma notícia, informação, reportagem, programa. Nada. Silêncio, vazio. Virou um mistério que muitos tentaram desvendar ao longo de mais de 40 anos. Falava-se: Foi para os Estados Unidos. Morreu, juravam outros. Casou-se, o marido ciumento acabou com a carreira. Certa vez, me disseram que ela morava na periferia paulistana, criando cachorros de raça. Não recebia ninguém, não se deixava fotografar, tinha envelhecido, estava acabada. Tudo vago, nada comprovado. As buscas foram diminuindo. Acabaram. O mito ficou.

Eis que (boa essa, eis que), ressurge Jacqueline. Viva. Nesta semana recebi um e-mail de Marcelo Duarte, jornalista, radialista, escritor, editor que se celebrizou em curiosidades. Ninguém sabe mais coisas curiosas do que o Marcelo. Tem vários livros, vive disso, é craque. Admiro pessoas que descobrem um nicho insólito na vida. Foi Marcelo quem me disse: "Jacqueline está viva, bem, é avó, mora nos Estados Unidos. Falo com ela de tempos em tempos, continua a pronunciar Arrrrarrraquarrrrra. Já publiquei duas matérias sobre ela em meu blog". Fui aos blogs. Com a parceria do repórter Magalhães Junior, eles contam que a Myrna tem hoje 66 anos. Pois não é que a certinha de Lalau continua bela e faceira? Foi para os Estados Unidos filmar um seriado, apaixonou-se, casou-se, separou-se. Casou-se de novo, teve uma filha, Victoria, que lhe deu três netos. Mora em Connecticut, chama-se Jacqueline Mitler e com o genro administra uma seguradora e uma rede de lavanderias. Vi as fotos, tem o mesmo rosto, a mesma brejeirice (tive de usar a palavra). Ainda fala português fluente. Aliás, já falava mais cinco línguas, romeno, francês, inglês, italiano e espanhol. Não era, nunca foi, a loura burra. Difícil vê-la como avó. Acontece que avôs e avós sempre são e serão seres especiais. Falta água, sobem impostos e contas, Dilma está à deriva, porém Jacqueline Myrna está viva.

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