Jacobina morre no Rio

Parceiro de Mautner nos últimos 40 anos, artista compôs Maracatu Atômico

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2012 | 03h24

Coautor de Maracatu Atômico, uma das canções mais importantes do moderno pop nacional, morreu ontem pela manhã no Rio o compositor e violonista Nelson Jacobina, aos 58 anos. Ele tinha câncer no pulmão e estava internado no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. Seu corpo seria sepultado às 16 h de ontem no Cemitério São João Baptista, no Rio, onde nasceu.

Havia 15 anos, Jacobina descobrira um tumor abaixo do queixo. Passou por radioterapia e a doença ficou 10 anos sem se manifestar, mas voltou há quatro. Os médicos tinham advertido a família da possibilidade de o câncer voltar de forma ainda mais violenta.

Parceiro de Jorge Mautner desde 1972, quando este voltou do exílio (na época, o violonista era conhecido pelo apelido, Carneiro, por causa dos cabelos encaracolados), Jacobina continuava fazendo shows ao lado de Mautner, embora estivesse vivendo havia quatro anos com o câncer em processo de metástase. O último foi no domingo, em Jacareí (SP), durante uma reunião dos Pontos de Cultura do Ministério da Cultura do Brasil (na quinta, tinham tocado no Sesc Santo Amaro, também em São Paulo).

O músico também integrava a Orquestra Imperial desde 2002. Trata-se de uma big band de notáveis da MPB, como Rodrigo Amarante (do grupo Los Hermanos), Moreno Veloso, Domenico e Kassin, Nina Becker, Thalma de Freitas, seu irmão Rubinho Jacobina e o cantor de samba e baterista Wilson das Neves (parceiro de Chico Buarque).

"Ele respirava por um fio, mas ia para o palco e era como um milagre, se renovava, se transformava", disse Jorge Mautner. Sua filha, a diretora de TV Amora Mautner, contou que o médico que cuidava do artista disse que não acreditava que ele tinha pegado um avião para fazer shows em São Paulo. "Disse que estaríamos desmaiados se tivéssemos a oxigenação dele", contou.

Jacobina conheceu Jorge Mautner quando este dava uma palestra sobre Nietzsche e a contracultura. "Toda minha obra musical foi feita com ele, tocando ou compondo", disse Mautner. Entre seus clássicos, estão Lágrimas Negras, Árvore da Vida e O Vampiro.

Maracatu Atômico, composta no final de 1973, foi gravada por mais de 40 artistas. Gilberto Gil, que a celebrizou, definiu a canção como "um manifesto da alma do homem da história deste tempo, o caminho do corpo universal, o espírito de Deus". A canção foi também uma espécie de manifesto do mangue beat, na interpretação de Chico Science e a Nação Zumbi, nos anos 1990.

"Jacobina talvez estivesse para Jorge Mautner como Vadico para Noel Rosa", disse o jornalista, crítico e pesquisador maranhense Zema Ribeiro. Jacobina e Mautner não só elaboravam uma obra conjunta, mas também ajudavam a dar novos contornos à obra alheia, como quando acompanharam Jards Macalé numa versão matadora de Vapor Barato (Jards Macalé/ Wally Salomão).

Filho de intelectuais, o pai, Nelcy Rocha Pires, um famoso positivista, morreu quando ele tinha apenas um ano, e a mãe, Tereza Eloá Jacobina, casou-se de novo com o cineasta Fernando Coni Campos (diretor de Ladrões de Cinema). Por conta disso, Nelson Jacobina Rocha Pires cresceu e foi educado numa atmosfera de debate artístico, tradição que manteve até a morte: estudava filosofia, debatia cultura e também era ativista ambiental. Tinha três irmãos.

Um dos seus discos mais festejados com Mautner foi Árvore da Vida, de 1988. Gravado em dois dias, como se fosse ao vivo, foi produzido por Pena Schmidt. Contém músicas clássicas, como O Vampiro, Hiroshima-Brasil e Lágrimas Negras. "A música Árvore da Vida é baseada na grande formulação de Goethe, 'Cinza, meu amigo, é toda teoria, mas verde é a árvore da vida'; e em uma das minhas paixões, Luiz Buñuel, no seu filme O Obscuro Objeto do Desejo", escreveu Jorge Mautner, que citou Maracatu Atômico, canção com o parceiro, para homenageá-lo: "Todo quadro negro é todo negro é todo negro/Que eu escrevo seu nome nele só pra demonstrar o meu apego."

"Mestre Nelson Jacobina, vizinho de Santa Teresa, iluminador sonoro da existência, vá em paz. Você cumpriu com grandeza e alegria", escreveu o deputado Chico Alencar. "Tinha uma energia boa e muito talento", disse o apresentador Serginho Groisman.

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