Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Jack, bardo do bem

Na Chácara do Jockey, no sábado, 20 mil prestigiam show do trovador havaiano, em noite morna, cheia de astros conservadores

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

"Tem travesseiro?", perguntou o espectador ao caixa em vez de pedir-lhe uma cerveja. Não, mas seria o acessório ideal para o fim de noite do festival Natura Nós, que teve o crooner de pop jazz Jamie Cullum e o surfista-trovador Jack Johnson como as principais atrações deste sábado, na Chácara do Jockey.

Com 20 mil pessoas empacotadas em uma multidão aconchegante (fazia um frio razoável), o clima da programação foi morno, sem altos nem baixos. Desde a confirmação do festival, a curadoria parecia determinada a apelar, com Maria Gadú, Roberta Sá e os galãs da noite, para nomes que agradariam em vez de empolgar, uma estratégia de marketing que funcionou perfeitamente durante o sábado, com uma plateia envolta na onda agradável de Jack Johnson e camaradas.

Pouco se viu além de conformismo a clichês pop. Jamie Cullum, o primeiro dos bons-moços da noite, subiu ao palco pouco antes das 20 h com seu jeitão rebelde, descabelado. Falou ao público em tom hiper cafeinado e se entregou, durante uma hora e pouco, de corpo e alma à massa de acordes alegres martelada sem parcimônia em seu piano. Como tudo no festival, desceu macio, mas não reanimou. O pop de Jamie é easy listening (aquele feito para agradar as mães também) e seu jazz é smooth. Ou seja, um hibrido sem força. No palco, as oportunidades de dar vida ao seu diálogo entre os dois são desperdiçadas e, em vez de improvisar, o pianista opta pelo arroz com feijão. Há lampejos em que Jamie arrisca um blues, um bebop e seus comparsas se sentem livres para tocar quantas notas quiserem. Na noite de sábado, estes constaram como os melhores momentos do festival. Pena que duraram apenas vinte ou trinta segundos por vez.

Na setlist de Jamie, algumas surpresas. High and Dry, do Radiohead e faz bis com The Wind Cries Marry, de Hendrix. Mas tanto faria se fosse Jackson do Pandeiro ou Bob Dylan. Jamie os tocaria da mesma maneira, sem nada muito eletrizante. Mixtape, o clímax antes do bis, foi um número macambuzio, com uma melodia que, entoada pela multidão que aplaudia, parecia o tema de um programa de auditório.

Mesmo assim, os melhores momentos de Jamie foram os melhores da noite. Quando subiu ao palco Jack Johnson, depois do hip hop e dub de BiD e companhia, a noite caiu na mesmice musical que levou alguns a pensarem no travesseiro ou, ao menos em um cobertor de piquenique. Um show de Jack se equivale a variações sobre o mesmo tema por mais de uma hora. As letras mudam, mas a música é sempre a mesma.

Para a vasta maioria do público, que teve grande presença de meninas pós-adolescentes, isto pouco importa. Jack é um galã e qualquer sorriso seu provoca um alvoroço. Quando se fez de tímido ao arriscar uma bossa nova em francês, a Chácara veio abaixo. Mr. Nice Guy, como uma reportagem do Estado apelidou-o neste mês, tem o dom de fazer parecer como se fosse um cara comum, bonitão, amador, que subiu ao palco para dar uma canja. A camiseta e o jeans surrados fazem parte do charme e, à medida em que o show progride, o violãozinho em tom maior põe a plateia em uma onda "do bem". Em inglês, chama-se Kumbaya, e o efeito colocar a plateia em comunhão como se todos vivessem em um comercial de margarina.

Quando G-Love, que tocara no início do dia, subiu ao palco para uma canja, o clima barzinho, voz, violão tomou posse do festival. Vanessa da Mata mandou um Mas Que Nada e todos foram para casa, felizes para sempre.

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