Jaar, entre som e ruído

Solos de piano. Um fósforo queimando na escuridão. O sussurro de um casal debaixo dos lençóis. São elementos que compõem a sensualidade soturna dos beats de Nicolas Jaar, produtor prodígio que toca amanhã, no clube D.Edge, e depois em Itajaí, Santa Catarina. O músico chega na onda de sucesso de seu disco de estreia, Space Is Only Noise, de 2011, uma excelente fornada de batidas que envolve hip-hop e electro em véus de matéria escura. São extremamente intimistas.

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2011 | 03h08

Não só pelos vocais murmurados, ou pelo excepcional controle de Jaar em seu uso de espaço ao distribuir os elementos durante a progressão de cada faixa. Mas também pelo toque de suas texturas, que mesclam eletrônico e sons cotidianos com destreza (firme influência da musique concréte), como fazem mestres do dubstep, de Burial e Shackleton a Actress.

No hit Keep Me There, o acender do fósforo descrito acima se dissolve em bolhas d'água e se camufla em um chiado que cai como areia sobre o som. Uma melodia engraçada se alterna com um piano melancólico, e antes que se perceba, bolhas, acordes e fósforos são transformam em um sofrido solo de saxofone.

O suingue manso das batidas tem ecos do trip-hop de Massive Attack e Portishead, ancestrais de Jaar, mas o produtor cita Erik Satie e o jazzman etíope Mulato Astatke como suas influências principais. O vácuo que envolve os elementos de cada faixa faz parte de uma filosofia musical que Jaar tem sobre espaço e ruído (traduzido, o título do disco é O Espaço É Somente Ruído). "O ruído é o acúmulo de sons", explicou em entrevista ao site The Drone, este ano. "Mas o ruído deixa de ser som e transforma-se em algo que ocupa um determinado espaço", completou e mostrou o conceito na capa do disco, que traz uma foto do músico antes de completar um ano, dormindo em um carrinho de nenê estacionado no espaço onde esteve o Muro de Berlim. "Assim como aquele pedaço entre a Alemanha Ocidental e a Oriental, o ruído é a terra de ninguém. O ruído é o tudo e o nada ao mesmo tempo."

Space Is Only Noise está disponível para download pago, com cartão, no site www.juno.co.uk. Trata-se de uma obra-prima feita por um rapaz de 21 anos, que é dono de um selo e estuda literatura na universidade de Brown. Seu pai é o renomado artista plástico Alfredo Jaar, que no ano passado expôs sua arte ativista sobre Ruanda na bienal de São Paulo. Jaar nasceu em Nova York, mas mudou-se para Santiago, Chile, de onde seus pais vêm e começou a produzir música eletrônica aos 14 anos. Aos 18 já tinha um single (o excelente The Student) lançado pelo influente selo Wolf + Lamb.

No show que fará aqui, dividirá a casa com outra fera, o veterano Moodymann, um dos grandes nomes da revolucionária cena de Detroit, nos anos 90.

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