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Humberto Werneck
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Já vi este filme

O assunto era cinema, capítulo "meu filme inesquecível", e, chegada a minha vez, não titubeei. Farejando, porém, uma expectativa de diamantes graúdos como Cidadão Kane, achei que era preciso explicar a minha escolha.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h18

Nós Que nos Amávamos Tanto, comecei, pode não ser um dos momentos mais altos da história do cinema. Não é - o próprio Ettore Scola já fez coisa melhor, quem sabe O Baile, A Família, Um Dia Muito Especial. Mas não é menos verdade que as listas dos dez mais nem sempre correspondem às escolhas do coração - chego a desconfiar de que na intimidade os melhores críticos esnobam O Ano Passado em Marienbad para refocilar gostosamente na inconfessável paixão por alguma bobagem classe B.

E então me pus a desfiar obviedades: Nós Que nos Amávamos Tanto não é uma bobagem classe B; mereceria cintilar no topo da filmografia de muito cineasta do primeiro time, e se isso não acontece na de Scola é por ter a obra dele passagens ainda mais felizes.

Mesmo assim, meu preferido segue sendo esse filme de meados dos anos 70 - e eis que, depois de tão peremptória afirmativa, devo agora confessar: só o vi uma vez, quando estreou em Paris, em 1975. Andei procurando por ele nas locadoras, até que, requisitado por urgências cinematográficas supervenientes, meu interesse foi aos poucos arrefecendo. Hoje me pergunto se Nós Que nos Amávamos Tanto me causaria ainda impressão tão forte quanto a que causou naquele moço de 30 anos.

Havia na televisão francesa um programa que anunciava as estreias, e a sequência do filme de Scola ali servida como aperitivo me fisgou: ao ver dois amigos a discutir por sua causa, nas ruas desertas de uma Roma noturna e chovida, a moça (Stefania Sandrelli), desgostosa, vai se refugiar numa cabine de fotografia - e quando um dos rapazes, cansado de bater boca, volta em busca da amada, encontra apenas uma tirinha de papel com a sequência de quatro fotos em que se acompanha o percurso de um belo rosto a viajar da tristeza ao choro escancarado. Um filme dentro do filme! - e fui correndo ver Nós Que nos Amávamos Tanto.

Você provavelmente conhece a história daqueles três amigos - o advogado Gianni (Vittorio Gassman), o enfermeiro Antonio (Nino Manfredi) e o crítico de cinema Nicola (Stefano Satta Flores) - e do foi feito deles e de sua amizade, da juventude à idade madura, entre os anos de 1944 e 72. Suas trajetórias (os três sucessiva ou simultaneamente apaixonados pela mesma garota) terminam, quem duvidaria?, não sendo o que eles programavam quando jovens.

Não está se lembrando? Antonio atravessou bem o tempo, mas Gianni, idealista da resistência antifascista, resultou num burguês enfastiado e cínico; e Nicola, em vez de fazer filmes, como seu ídolo Vittorio De Sica, acabou cineasta passivo.

Câmeras menos talentosas fariam desse balanço de geração, tema achatado de tão batido, um inventário do tipo que-fizemos-nós-de-nossos-sonhos. Não a de Scola, capaz de registrar filigranas, meios-tons, delicadezas como o grão de humor e de esperança que às vezes se disfarça na melancolia. E lá vamos nós por sentimentos diversos e mesmo opostos, dentes cravados numa sumarenta fatia de vida.

A menos que... A menos que uma revisita, a que agora me proponho - e eis, finalmente, o porquê desta conversa sobre assunto tão fora de cartaz... -, me venha confrontar com o moço que, faz tantos anos, saiu encantado de uma estreia em Paris, certo de ter visto uma obra primíssima da arte cinematográfica. Não sei se mereço uma recaída de encantamento, ou se me espera uma decepção - com o objeto de meu entusiasmo juvenil, com a ingenuidade, talvez, daquele rapaz, ou com certo cronista que se visse transformado, a contragosto, num camarada por demais sexagenário.

Se achar que vale, volto e conto no que deu a revisita.

***

Na semana passada, dei aqui uma amistosa (embora enfática e veemente...) cutucada em Pedro Augusto Graña Drummond, instando-o a providenciar a edição em livro das deliciosas crônicas que seu avô, Carlos Drummond de Andrade, escreveu no diário oficial de Minas Gerais entre 1930 e 1934. Em resposta, Pedro esclarece que ele e seus irmãos jamais se opuseram a isso, e que, "se tudo correr bem", o livro pode não tardar.

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