Já podeis?

Os dois autores adorariam saber que a parceria deles tem sido entoada, a capela, nos estádios onde o Brasil vai gramando nesta Copa do Mundo. Até agora, não houve abertura de jogo do time do Felipão em que o povaréu não tenha sustentado, no gogó, os acordes e, quem sabe, a letra do Virundum. Não deixa de ser um feito da nacionalidade.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2014 | 02h07

Virundum, se você não sabe, é como a molecada de outrora se referia ao Hino Nacional Brasileiro, transformando nesse quase palavrão o "Ouviram do..." da letra que Joaquim Osório Duque Estrada bolou para a música de Francisco Manuel da Silva. Com a mesma irreverência, aliás, com que se fez da introdução do hino esta musical salada de frutas: "Laranja da China, laranja da China, laranja da China / Abacate, limão doce e tangerina...". Ou, ainda, tomando-se liberdade com o homônimo bairro paulistano, o "Já podeis da Pátria filhos..." do Hino da Independência virou "Japonês tem quatro filhos...". Brincadeirinha que parece ter saído de moda, talvez porque, dizem, prole de japonês costuma ser pequena.

Já que estamos no assunto: me lembro de uns gaiatos que no colégio se divertiam cantando a música do Hino à Bandeira, aquele do "Salve lindo...", com a letra do samba Ai, que saudades da Amélia - e vice-versa. Não é que os encaixes são perfeitos? Experimente. Com essa não contavam o maestro Francisco Braga e o poeta Olavo Bilac quando compuseram o Salvelindo, faz mais de cem anos. Nem o Ataulfo Alves e o Mário Lago, ao criarem Amélia, em 1941. Ou será que esses dois fizeram de propósito, mas sem dar bandeira?

Voltando ao Virundum e aos arrepios cívicos que em dia de jogo têm chacoalhado o corpanzil do Gigante Adormecido. Tudo bem o lararará, mas, sem querer ser chato, cabe perguntar: nas cadeiras numeradas ou no sofá da sala, quantos brasileiros de fato sabem, na ordem certa, as 250 palavras do Hino Nacional? Não, não vou posar de exceção. Até hoje não decorei a letra, e durante anos, menino, me perguntava quem diabos seria aquele "Herói Cubrado" que, embora retumbante, não estava no gibi. Ou o "filho deste Solesmãe", expressão que ainda me soa a xingamento (imagine o coro dos cascas-grossas nos estádios: sua solesmãe do PAC!). Em matéria de hino empolado, ganhamos até do português, com seus "egrégios avós" e seu "jucundo oceano a rugir d'amor".

Já podeis? Eu não: limito-me a driblar o palavrório, sobretudo na segunda parte, quando a letra mergulha naquele mar encapelado de "a terra mais garrida" e "o lábaro que ostentas estrelado". Numa prova de leitura labial, quantos filhos da Pátria se sairiam a contento? Fico pensando se não seria o caso de instituir - para os representantes do povo, pelo menos - um teste vocal eliminatório. Desafinar, tudo bem - só privilegiados têm ouvido igual ao seu; mas encarapitar-se num dos Poderes da República sem ter de cor o Hino Nacional? Vai ver que nem o FHC.

Em parte, é culpa do Duque Estrada e suas tortuosidades estilísticas. Alguma coisa, por certo, o autor de A Aristocracia do Espírito quis nos dizer com aquelas 250 palavras. Talvez as tenha embaralhado de cabeça pensada: sem as curvas do Estrada, o hino resultaria compreensível, isto é, prosaico, incapaz de nos causar tanto arrepio. Sim, há quem goste de se perder em brumas retóricas. Um pouco como a turma nostálgica da missa em latim, amparada no argumento de que Deus, embora saiba, não fala português.

O falecido jornalista maranhense Lago Burnett, no livro A Língua Envergonhada, deu-se à pachorra de tornar inteligível a catastrófica estrofe que abre o nosso hino. Na primeira tentativa, ficou assim: "As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico no instante em que o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pátria".

Burnett foi adiante: "O brado retumbante de um povo heroico foi ouvido pelas margens do Ipiranga no instante em que, no céu da Pátria, o sol da liberdade brilhava em raios fúlgidos".

E por fim se deu por satisfeito: "O imperador Pedro I proclamou a independência do Brasil às margens do Ipiranga, em São Paulo, tornando o país, a partir desse instante, liberto de compromisso para com a Corte de Portugal".

O problema é que assim não dá samba - e muito menos hino.

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