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Já pode rir?

O humor depende de encontrar perspectivas inusitadas que nos surpreendam para as coisas, o que se revela uma maneira bem eficaz para mudar nossa visão dos problemas

Daniel Martins de Barros, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2020 | 03h00

Um amigo psiquiatra queixou-se comigo que estava sentindo falta do humor nessa quarentena. Onde estão os humoristas quando precisamos deles? Parece que se acomodaram com as facilidades oferecidas pelo governo e nem querem saber de pandemia. Não que estejam recebendo verbas da Lei Rouanet, mas se formos justos é difícil negar que poucos governos fizeram tanto pelos comediantes. Como disse no início do século passado o ator americano Will Rogers: “É fácil ser humorista quando se tem o governo inteiro trabalhando para você”. Difícil para eles está falar de outra coisa. 

No caso particular da pandemia, há duas dificuldades adicionais para quem vive de fazer piada: proximidade e intensidade. Já reparou que quando rimos de uma história normalmente é porque alguém se deu mal? Uma das características que diferenciam piadas bem e malsucedidas é a habilidade de o autor enquadrar esse infortúnio de maneira que não seja agressiva, fazendo rir diante de uma situação diante da qual o esperado seria reagir negativamente. Quando as reações negativas são muito intensas, contudo, fica complicado encontrar esse ponto. 

Situações recentes, frescas na memória, por exemplo, costumam não render boas reações do público. “Too soon”, grita o público nos espetáculos de stand-up americanos quando o comediante toca num assunto cedo demais. Encontrar o timing correto para a piada é o segredo da arte: cedo demais a piada fica agressiva, tarde demais perde seu apelo. Situações muito carregadas, como tragédias, crimes desumanos, também não são material bom para o humor. É muito complicado reduzir cargas aversivas tão intensas. 

Daí a dificuldade de fazer rir na pandemia. É intensa e está perto. 

Como explicar então a gigantesca proliferação de memes que recebemos todos os dias? São trocadilhos, paródias, charges, montagens fotográficas, vídeos, várias piadas com nossa absurda condição de reféns amedrontados de um inimigo invisível. Há até o meme do caixão. Não está muito cedo? Não é muito grave? 

Em primeiro lugar, eles são anônimos. Então seus autores ficam protegidos. Mas mais do que isso, o humor é uma excelente estratégia para lidar com situações adversas. O humor depende de encontrar perspectivas inusitadas que nos surpreendam para as coisas, o que se revela uma maneira bem eficaz para mudar nossa visão dos problemas. É a mesma proposta da técnica de controle emocional chamada reavaliação: mudar nossa resposta emocional a uma situação mudando nossa interpretação sobre ela. Não são as situações que nos estressam, afinal, mas o significado que lhes atribuímos. 

Isso é o que fazem as piadas. Apresentam perspectivas inusitadas para histórias ruins. É assim que fazem a mágica a que nos referimos de reduzir a carga negativa dos problemas – sem deixar de falar deles. O processo é tão eficiente que qualquer um que já tenha ido a um velório sabe que em poucos lugares se contam tantas piadas. 

Não se constranja, portanto, quando se vir dando risada de algo ligado à covid-19. Conseguir encontrar uma perspectiva bem-humorada para um problema não significa tripudiar dos que sofrem com ele. É o contrário: significa tentar aliviar, ao menos em parte, essa dor. 

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