Jon Furniss/ AP
Jon Furniss/ AP

'Já me senti muito só', revela Nicole Kidman

Atriz lembra que, quando ganhou o Oscar, a sua vida pessoal estava um desastre

PEDRO CAIADO - ESPECIAL PARA O ESTADO,

12 de junho de 2013 | 02h11

LONDRES - Na seguinte entrevista, Nicole Kidman fala sobre a experiência de trabalhar com o cineasta sul-coreano Park Chan-wook, em Segredos de Sangue, de seus novos projetos e do desejo de trabalhar em séries de TV.

Você tem enveredado por produções independentes. Por quê?

Foi uma escolha espontânea. Mas a realidade é que não sabemos o que são filmes independentes hoje, já que o dinheiro vem de diferentes fontes. Mas estou interessada no que não é mainstream. Gosto de coisas que não seguem o padrão. Tentei seguir o padrão por muitos anos, mas agora não ligo mais. Meu espírito sempre foi 'que se dane o sistema'. Não quero fazer o que é esperado. Talvez tenha entrado na segunda etapa da minha carreira, quando cheguei aos 40.

Os filmes do diretor Park Chan-wook são extremamente violentos. O que acha da violência no cinema?

Não gosto de exploração da violência em filmes, mas quando ela tem um sentido, não sou contra. Não entendo como a sociedade permite mais violência no cinema do que sexo, por exemplo. Chan-wook é superinteligente, um mestre. Quando vi Oldboy, parei na metade. É muito violento. Ele é um homem tão gentil e, contudo, faz estes filmes.

Chan-wook não fala inglês. Foi difícil trabalhar com ele?

O diretor de Os Outros, Alejandro Amenábar, falava muito pouco. Tínhamos um tradutor ao lado, o tempo todo. Não foi muito complicado.

Você trabalhou com lendários diretores, de Kubrick a Von Trier, e afirmou que não os escolheu, mas eles a escolheram? Não é arriscado?

Tudo é arriscado. Por que não? Foi assim na maioria das vezes, como em Segredos de Sangue, Grace de Mônaco.

Em Segredos de Sangue, você trabalha com a jovem australiana Mia Wasikowska, de 23 anos. Encontrou nela características semelhantes às suas quando tinha a mesma idade?

Antes das filmagens, disse que, se ela precisasse de conselho, eu estaria lá. Já passei por isso e tive quem me desse ótimos conselhos. Mas a Mia é bem estruturada. Um dia a vi lendo Chekhov. Quem lê hoje em dia? A maioria se isola com seus smartphones. Li bastante na minha juventude e foi assim que desenvolvi minha sensibilidade. Garanto que a Mia ainda vai ganhar um Oscar.

Você vive Grace Kelly em Grace de Mônaco. Ficou preocupada com o papel?

Sempre fico preocupada. Eu me apaixonei pelo diretor Olivier (Dahan) e adorei viver na França por um tempo com meus filhos. Eu tive de ver muito material sobre ela e a sua instabilidade e seu refinamento me chamaram a atenção. Não é um filme biográfico. Abordaremos apenas seis meses da vida dela.

Por que você diz que costuma querer pular fora dos projetos?

Acho que parte disso é medo e outra é por me sentir oprimida porque penso que dez outras pessoas poderiam fazer aquele papel bem melhor que eu. Permaneço quando meu agente diz que posso ser processada. Quando estou no set, fico bem, o problema é chegar lá. Muitos artistas sentem isso. Hoje, já consigo vencer esse medo mais facilmente, mas, no começo, era um pesadelo.

Você disse que a série Homeland foi a melhor do ano. Quer fazer TV?

Claro. Há ótimos papéis em séries de TV. Eu faria, dependendo da quantidade de trabalho. Sou um pouco preguiçosa. Não gosto de trabalhar muitas horas, tenho duas filhas. Mas nunca se sabe. Eles poderiam fazer menos horas.

Já sentiu ter alcançado o que queria na carreira?

Quando terminei de filmar Grace, abrimos um champanhe e comemoramos. Mas quando ganhei o Oscar, por exemplo, lembro de celebrar, mas também de me sentir muito solitária, pois não tinha o que tenho hoje. Acho que essas situações, em que você vivencia um grande sucesso profissional, podem mostrar o que não possui na vida real. E todo aquele período em que levamos Moulin Rouge para Cannes, até vencer o Oscar por As Horas, foi muito estranho. Era uma mistura de sucesso profissional e fracasso na vida pessoal. Isso acontece para muita gente. É o equilíbrio que temos que achar na vida.

O que buscava, realmente?

Queria ter um filho e uma vida real. Não tinha nem casa. Alugava lugares e vivia como cigana. Foi quando percebi que queria ter uma pessoa para dividir a vida comigo e foi assim que fui morar no Tennessee com meu marido.

Morar no Tennessee é melhor do que em Hollywood?

Adoro. É um lugar tranquilo, gosto da natureza. Temos uma fazenda. Gosto de ouvir música country, jazz e Jack White e Black Keys, que são de Nashville.

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