"<i>V</i> é de liberdade", diz Lloyd, quadrinista de <i>V de Vingança</i>

V é uma expressão da liberdade, explica David Lloyd, co-autor de um dos mais revolucionários personagens dos quadrinhos. V é o codinome do protagonista da revista V de Vingança. O desenhista inglês, em São Paulo há duas semanas, deu uma breve entrevista na tarde deste sábado comentando os protestos realizados em Washington no mês de novembro. Lá, centenas de pessoas vestidas como o mascarado herói visitaram alguns dos principais marcos do governo, como o Departamento de Justiça e o Congresso americano. Na série de protestos organizada pela Fundação Nós o Povo (http://www.givemeliberty.org/), os integrantes poderiam ter escolhido qualquer tipo de disfarce, mas preferiram usar o de V. "Sim, porque V representa uma compreensível afirmação de resistência. Algo ótimo na história de V é que ele prega a liberdade - os filmes especificamente - liberdade sem qualquer implicação de qualquer conotação especifica" - afirmou Lloyd. Bob Schulz, um dos líderes da Fundação, explicou os objetivos da organização. "A Primeira Emenda da nossa Constituição federal garante o direito do povo de pedir uma reparação, especialmente no que for relacionado a questões constitucionais. Isso significa que se o povo tem evidências de que o governo tem violado a Constituição ele pode fazer uma petição de retratação ao governo e o governo deve respondê-la", afirmou Schulz em e-mail ao Estado de S. Paulo. Segundo Schulz, tudo que a Fundação queria era que o governo respondesse questões específicas e de conhecimento público, como o uso de força militar fora do país sem uma declaração de guerra do Congresso e sobre a quebra de sigilo imposta à população através do Patriot Act, medidas antiterrorismo tomadas pelo governo de George W. Bush. Para além de uma postura radical, à esquerda ou à direita, para Lloyd, a utilização da figura de V neste caso parece ser algo que segue o espírito de seu personagem. "Não é sobre libertar-se de uma ditadura e se tornar socialista ou um comunista ou um democrata ou qualquer outro matiz de opinião política. V fala sobre libertar-se. E o filme mostra isso mais do que qualquer outra forma de arte." O filme aliás, é algo que o desenhista particularmente disse ter gostado. Não é uma transposição, mas uma versão de sua obra original. Ao contrário de David Lloyd, o escritor da HQ, Alan Moore, fez questão de tirar seu nome dos créditos do filme dirigido por James McTeigue e roteirizado pelos irmãos Wachowski Para quem não viu o filme ou leu os quadrinhos, V de Vingança é uma das mais notáveis expressões artísticas aliada à uma clara opinião política. Contudo, no quesito ideologia, a HQ ganha terreno sobre a versão do cinema. Numa das mais emocionantes passagens da história, V tem um diálogo com a silenciosa estátua da justiça, dama cega, foco do seu amor na juventude e confessa que a traiu. "Seu nome é anarquia. E ela me ensinou mais como amante do que você supõe. [...] Com ela, aprendi que não há sentido na justiça sem liberdade. É honesta. Não faz promessas e nem deixa de cumpri-las como você." O que pode soar um tanto radical, especialmente quando são cidadãos americanos se inspirando nessas histórias. Mas não se pode esquecer que radicalismo "heróico" é parte da própria identidade americana. Foi de radicalismo que se fundou o país quando os patriotas americanos - radicais pró-independência - jogaram ao mar um carregamento de chá inglês no porto de Boston em 1773. O episódio, sacralizado na historiografia americana, foi um dos estopins da guerra de independência de 1776 a 1812. O disfarce usado por esses patriotas, à época, era tão bizarro quanto dos sujeitos vestidos de V: pintados e adornados com penas indígenas procuraram esconder sua identidade para escapar das punições da metrópole inglesa. Aparentemente, anonimato pareceu uma boa idéia para manifestar insatisfação com o governo. Notável é que este anonimato se dê sob a máscara de uma personagem da ficção. V, para seu público, virou um símbolo da busca de algo perdido. Há de se haver heróis para o reencontrar. Se a arte pode tocar as pessoas para além do entretenimento, David Lloyd não podia estar mais satisfeito: "Que mais eu poderia pedir?", diz orgulhoso.

Agencia Estado,

26 Novembro 2006 | 16h58

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