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Ivete Sangalo lança novo álbum

A cantora, entre o gás de sempre e a tranquilidade maternal, divulga 'Real Fantasia'

ROBERTO NASCIMENTO - O Estado de S.Paulo,

06 Outubro 2012 | 03h08

Entre os recordes de vendas, downloads e cachês que marcam a trajetória de Ivete Sangalo, o provável título de dispensa maternal mais curta por parte de uma cantora próxima dos 40 anos é mera curiosidade, mas tem sua relevância. Menos de três meses após ter um filho, em 2009, Ivete subiu ao palco do Beira Rio, um feito que seria, certamente, elogiado por Beyoncé, quase dez anos mais nova - cuja licença durou cinco meses, após um parto, em fevereiro - ou por Britney e Madonna, mães mais sossegadas, que descansaram um ou dois anos.

Dados de interesse ao Guinness à parte, se a maternidade teve efeito tranquilizante na carreira de Ivete Sangalo, este é mais sutil do que se costuma esperar. "Eu quero muito que meu filho me veja em ação, que ele lembre de tudo isso e pense, 'minha mãe é massa, olha ela fazendo todas aquelas coisas ali'", conta Ivete. E, de fato, não há nada que indique um 'Desaceleraê' no repertório da cantora.

No ano que sucedeu sua gravidez, Ivete fez o show mais badalado de sua carreira no Madison Square Garden, onde mostrou ambições internacionais, cantando em inglês e espanhol, dividindo o palco com Juanez, ídolo do pop latino. Desde então, a agenda esteve cheia, embora não tenha chegado mais ao nível 'James Brown' de 30 shows em um mês, um marco mais realista, hoje em dia, ao se falar de Claudia Leitte (que, aos 28, ficou apenas um mês afastada no pós-parto).

De 2011 para cá, Ivete foi headliner do Rock in Rio, fez comerciais, atuou na série Gabriela, da Globo, e gravou o disco Real Fantasia, que chega às lojas na próxima semana. Os grooves arrastados do lançamento, que vai de cumbia, a son, a samba-reggae, com mais discreta ênfase no frenesi de trio elétrico, são os únicos indícios de que Ivete, aos 40, navega águas mais tranquilas.

"Se mudou alguma coisa, não foi intencional", explica. "O disco tem um pequeno resgate, por minha parte, do samba reggae e do samba funk, coisas que eu fiz durante minha carreira, mas sempre de forma picotada", completa. A abordagem de Real Fantasia é, como de praxe, voltada para o show. A produção de Alexandre Lins é enxuta, e fora um sintetizador com ecos de tecnobrega aqui, uma sanfona de lambada acolá, define o que a banda fará sobre o palco de forma objetiva. "Eu sou uma mulher do ao vivo", conta Ivete. "Funciono melhor sobre o palco, não só musicalmente, mas a minha criatividade, em geral, aflora em frente à plateia, e mesmo no estúdio, a ideia é captar a presença física da banda."

Durante uma carreira praticamente imune à derrocada do sistema de gravadoras, construída, desde os anos da Banda Eva, no corpo a corpo do trio elétrico, o estúdio e seu produto são secundários às apresentações. "80 mil. Isto é muito? Não estou por dentro dos números hoje em dia", diz Ivete após ouvir a expectativa de venda da primeira leva do disco.

Não é surpreendente, portanto, que o processo de criação de um disco de Ivete seja prático. A balada Só Um Sonho, por exemplo, foi composta no camarim, depois que seu maquiador lhe contou, aos prantos, que havia sido traído. "Eu disse: 'Pera aí que eu vou fazer uma música para você agora. Escrevi a letra, chamei o Ramon (Cruz), meu arranjador, e logo tínhamos a canção", relata. No estúdio a história é a mesma. "Quando eu faço um disco, não tenho uma lógica, uma execução de um conceito ou ideia em mente. Eu gravo o que me vem. Às vezes um pop funkeado, às vezes um samba reggae, que eu adoro", conta. Faz sentido, pois Real Fantasia poderia ter sido feito em qualquer ano de sua carreira. Não, esteticamente, distante de Festa, ou Beat Beleza, por exemplo.

Quando pergunto se uma carreira internacional, almejada certamente, com Real Fantasia, que tem dueto com Shakira disponível exclusivamente no iTunes, não necessitaria de mais foco em uma linguagem de produção mais conhecida, como R&B ou dance music, Ivete retruca: "Na minha ignorância, uma carreira internacional é uma carreira no México, na Espanha, no Uruguai e na Turquia. É um trabalho feito no dia a dia. Show por show. Então, quando o New York Times escreve que não entende por que eu toquei Cadê Dalila? no Madison Square, eu digo que é porque eles não entenderam. Sou Ivete, uma cantora brasileira, baiana, tocando em Nova York. Não vou tocar um hip-hop só porque estou lá", completa ela.

Do disco, as preferidas de Ivete são as que descrevem situações do povo na rua, no meio do carnaval, como No Meio do Povo. "Você sabia que tenho mais memórias de antes da fama do que de depois? Eu vivi o carnaval lá de baixo, no meio do povo. E minha adolescência no carnaval de Salvador ainda é muito viva para mim."

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