Reprodução
Reprodução

Ivan Lins à beira do sucesso

O Estado relança disco que antecedeu a fama internacional e conquistou respeito de Miles Davis

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Ivan Lins conta que a morte de Elis Regina não só desorientou os compositores que a tinham como referência, como também diminuiu a cobrança por melodias de qualidade nos andares de cima da MPB. Nas próprias palavras de Ivan, muita gente resolveu "soltar a franga" e abraçar de vez a demanda por música de consumo, uma vez que Pimentinha não estava lá para castigá-los com seu desdém.

Este Ivan Lins pós-Elis é o que ficou cravado na memória popular: aquele cara do pianinho cafona, das melodias excessivamente simpáticas - trilhas para voos da Varig ou noitadas de homens em crise de meia-idade. Aquele cara da sofisticação pop que hoje, três décadas depois, soa tão contemporânea quanto blazers e ombreiras.

Mas antes de fazer o famoso pacto com o Diabo da música comercial, havia um Ivan Lins menos pasteurizado, que embora almejasse ser pop, ainda não descobrira a fórmula, e portanto deixava seu talento melódico mais exposto, menos produzido.

Esse Ivan é o que se ouve em Somos Todos Iguais Nesta Noite, disco de 77 que será relançado pela Discoteca Estadão no próximo domingo. Antes de gravá-lo, o compositor já havia emplacado um de seus maiores hits, Madalena, gravado pela própria Elis em 1971, e que proporcionou o início de sua carreira solo.

De acordo com Ivan, esta veio precipitadamente e os primeiros discos, Agora e Deixa o Trem Seguir são irregulares e teriam de ser regravados. "Eu não consigo me ouvir cantando nesses discos. Era tudo forçado, como uma voz que não me pertencia", disse ele.

Sua busca por uma identidade artística continuou no sugestivamente intitulado Quem Sou Eu?, mas só começou a dar frutos quando o compositor conheceu o letrista Vitor Martins, parceiro de Sueli Costa em 20 Anos Blue, gravado por Elis.

Foi com Vitor que Ivan fez seu próximo sucesso, Abre Alas, e à mesa de um boteco tramou a letra da música que lhe traria fama internacional.

Dinorah parecia ser um bom nome para uma canção e quando Vitor avistou um homem contando vantagens galanteadoras para seus amigos, a letra tomou forma: Dinorah seria a falsa mulher que o suposto malandro havia conquistado.

A canção é a terceira faixa de Somos Todos Iguais, e chamou a atenção de ninguém menos que Quincy Jones, que a gravou alguns anos depois num disco de George Benson. O quilate melódico da canção mostrava que seu compositor sabia das coisas.

Isso fica claro nas belas Ituverava e Qualquer Dia, canções com sacadas harmônicas sofisticadíssimas, reminiscentes de Jobim tardio e da escola mineira de Milton e o Clube da Esquina. Mãos de Afeto, outra joia, mostra que o impressionismo harmônico de Ivan estava à frente de seu tempo. Não é à toa que Benson, Ella Fitzgerald e, sim, Miles Davis o tratavam com tanto respeito.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.