Ivan Lessa: O que atrapalha as eleições britânicas

Colunista comenta a reta final das eleições britânicas e o modelo de democracia no país.

Ivan Lessa, BBC

26 de abril de 2010 | 05h12

Sendo sucinto, eu diria que os dois grandes empecilhos à plena democracia na Grã-Bretanha são, primeiro, os candidatos, e, segundo, os eleitores. O resto todo é nota 8, cinco estrelinhas, bonequinho batendo palmas.

Entendam-me, não estou recomendando a ditadura como sistema ideal de governo. Apenas sendo ligeiramente (muito ligeiramente) facecioso. Falta pouco mais de uma semana para as eleições gerais e, de ouvido, eu diria que o povão (diga big people) não aguenta mais a barra da campanha. E olha que a coisa toda, do anúncio das eleições à sua realização, não chega a levar um mês. Desta vez, à maneira norte-americana (deve ser a convivência com eles no Iraque e no Afeganistão), resolveram realizar debates transmitidos pela televisão, com direito à distinta platéia presente fazer perguntas.

Vou tentar ser justo. Ou, mais que isso, fair, palavrinha intraduzível. Não há desmandos como nos países irmãos em armas (sim, sim, os EUA) ou outros menos ou mais ou nada votados. Já disse, a campanha não tem muro pichado, alto-falante berrante, candidatos se auto-louvando na televisão. Agora, e não é só minha opinião, que enche as medidas, lá isso enche.

Bom mesmo, nessa coisa toda, é a ideia por trás do processo, como na obra cinicamente comercial de Andy Warhol. Nos principais tratados clássicos que lidaram, de uma maneira ou de outra, com a organização social de um Estado, muito pouco, ou nada, foi dedicado ao que hoje se vê nas grandes, médias e mesmo pequenas democracias. Na República, de Platão, na Utopia, de Thomas More, ou até na impudência graciosa do Príncipe de Maquiavel (um espécie de Andy Warhol alfabetizado e com senso de humor), não vamos encontrar nenhuma referência às coisas que atanazam a chamada (não-obrigatória, frisemos lembrando) arte de colocar um voto numa urna, sempre que possível indevassável.

Platão não contava com a pesquisa de opinião pública, os gráficos e os marqueteiros. Nem passou pela cabeça, logo a ser perdida por motivos políticos (sempre eles), de Thomas More a distribuição de volantes pelas ruas, os manifestos e as relações públicas. Não se pode negar que Maquiavel tenha deixado implícito, arte na qual era mestre, que a aparência física, a expressão corporal e a personalidade eram qualidades imprescindíveis a qualquer cidadão que quisesse impor sua vontade, ou suas qualidades, como eles mesmos diriam, ao seus semelhantes. Nada foi por ele dito a respeito de beijar criancinha.

Twitter? Blogue? Pelo amor de Deus, gente! Se um editorial ou análise jornalística de comentarista especializado já são sacais, que dirá qualquer tentativa de informatização do - voltamos a ele - processo em pauta.

Uma coisa me entusiasma bastante no esquema destinado a representar a vontade popular nos 650 representantes reunidos no Parlamento, que, como os entendidos sabem, trata-se do melhor clube particular do mundo - melhor mesmo que o White's ou o Boodle's. É o voto indireto. Quer dizer, os cidadãos votam no candidato de seu distrito e o trabalho que ele vem fazendo ou promete fazer.

Esse rapaz dos liberais-democratas, Nick Clegg, que andou marcando ponto à beça nos debates televisados: só votarão nele os eleitores registrados em seu distrito eleitoral. Isso significa que, volta e meia, dá zebra em eleições gerais britânicas. As pesquisas de opinião pública ganham um dinheirão dando quase todos os dias as mais recentes preferências do eleitorado, mas bom mesmo, para valer, é no dia - a quinta-feira, 6 de maio - o belo tipo faceiro que deu-se à pachorra, para usar uma expressão clássica como Platão, More ou Maquiavel, de comparecer ao posto eleitoral e, na cabine indevassável, não votou em quem se saiu melhor nos debates.

Votou no camarada que ele conhece mais do que de vista. Possível, e idealmente, conhece de papo levado no surgery de seu lídimo representante. Surgery, como o consultório médico, é o nome do, espera-se, modesto escritório onde o parlamentar recebe, às vezes todas as semanas, seus digníssimos (e eles os são) eleitores.

Voto tático? Nesse quadro, e com essa paisagem, inexiste.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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