Ivan Lessa: Gotas culturais

Colunista comenta encenação de 'Henrique IV' de Shakespeare em Londres e a troca de espiões entre EUA e Rússia.

Ivan Lessa, BBC

14 Julho 2010 | 05h11

Hoje, no dia em que estas linhas se informatizarem, estará estreando no The Globeuma nova montagem da peça Henrique IV, de Shakespeare, que, na verdade, escreveu Henry IV, mas isso não vem ao caso, e a obra vem dividida em duas partes, partes 1 e 2, ou I e II, conforme quis, talvez por ignorância, o controvertido autor, supostamente genial.

The Globe é aquele teatro circular e ao ar livre, reconstruído de acordo com os moldes originais datados do século 16 (1599 para ser preciso) e é associado particularmente com a obra teatral de Shakespeare. Foi uma lenha, mas, mesmo baseando-se apenas em plantas precárias e ilustrações da época, ergueram o colosso lá na margem esquerda do Tâmisa.

Os Henriques, ou Henrys, nas duas obras mero príncipe Hal, e futuramente o quinto com seu prenome, raramente são encenados no mesmo dia, isso porque levam ao todo 6 horas e caquerada de duração. Cultura é uma boa, mas vamos devagar com a louça, ou "easy with the crockery", como poderia ter dito o imortal personagem Falstaff, segundão na célebre peça e baita amigo de Hal.

A última vez que levaram os dois colossos juntos foi em 1932. Apesar de todo mundo sentadão, a produção, da Royal Shakespeare Company (RSC), era uma dureza no backside (ou traseiro, se preferirem).

A versão atual ainda leva uma vantagem, ou desvantagem, dependendo do ponto de vista, sobre a anterior. Tal como há quatro séculos e tanto, uma boa parte da plateia tem de se acomodar de pé no pátio, conforme se fazia na época. É, inglês, adora ficar em pé. Até há pouco, tudo quanto era estádio de futebol praticamente acomodava 90% da assistência no que chamaríamos de "geral", ou, com boa vontade, "arquibancada". Foi preciso uma tragédia digna do Cisne de Avon para mudarem essa política e essa mania. Mas isso não vem ao caso. Chega de futebol.

Volto, figurativamente, ao The Globe. Não, não irei ver à maratona henriqueana. Nem sentado, nem em pé. Seis horas e tanto da melhor poesia, ação e produção não são brincadeira. Tudo insuperável, não tenho dúvida, nada parecido com o futebol deles, graças a Deus, mas qualquer coisa que dure mais de 90 minutos me cansa corpo e mente.

No entanto, vejam vocês (no sentido mais que figurado), 1.218 pessoas compraram os bilhetinhos de perto de US$ 15, uma pechincha, para assistir ao espetáculo que, em sua versão integral, ficará apenas 15 dias em cartaz. De qualquer forma, a direção do teatro aconselha à vertical plateia o uso de chapéu, muita água e, nos intervalos, sentar-se e comer qualquer coisinha. As vuvuzelas não terão sua entrada permitida no cultural recinto.

A sorte é que esta semana a temperatura baixou bastante aqui em Londres. Foi dos 30º para uns suportáveis 22º. Ideal para se ficar em casa vendo série americana de serial killer.

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E essa tolice enorme de troca de espiões entre russos e americanos? O que, afinal, estariam esses tolos espionando? Não há mais nada, de interessante ou não, a se espionar. Deveriam eles ter ido ao teatro ou ficado em casa vendo um CSI ou Law and Order da vida. Além do mais, uma troca absurda de espiões (10 russos contra 4 americanos) realizada em Viena. Logo aonde. A cidade em que, segundo o grande Graham Greene, chegado a umas espionagens, localizou um de seus grandes e canalhas personagens, Harry Lime, fazendo o tráfico de penicilina falsificada e matando cínica e cinematograficamente gente à beça. Que o digam Carol Reed e Orson Welles. Nada mais retrô do que esse episódio que só teria cabimento nos anos de Guerra Fria.

Quem melhor comentou o evento foi John le Carré, que entende paca de Guerra Fria, tendo com ela faturado horrores. Escrevendo, claro, e não espionando. Ao menos, até onde sei. Num artiguete publicado na imprensa britânica, a uma certa altura le Carré escreve o seguinte: "O que haveria para escolher entre a Mãe Rússia e a Mãe América, dois vastos continentes se afogando nas águas oleosas do capitalismo? Teria sido mesmo apenas o nome no cinto salva-vidas que fez toda a diferença? A Mãe Rússia, para melhor ou pior?"

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Paulo Coelho, está em vias de publicar, ou já publicou, um livro - mais um, caixinha, obrigado! -, desta vez intitulado O Aleph. Vem cá, é preciso que algum esoterista alfabetizado chegue para esse moço e explique que já foi editado, distribuído, resenhado e consagrado um volume com esse preciso nome, O Aleph. Da autoria de um certo senhor não de todo desconhecido, Jorge Luis Borges.

O Aleph, segundo a disciplina (?) do esoterismo, e conforme o usou Borges no conto que dá título ao livro justamente tido como um clássico, representa o infinito unido, a unidade coletiva e que a um só olhar revela toda a realidade do mundo, passada, presente e futura, se manifestando simultaneamente. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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