Ivan Lessa: Eu sou a bola. Muito prazer.

Colunista comenta a polêmica em torno da Jabulani, a bola da Copa.

Ivan Lessa, BBC

11 de junho de 2010 | 06h21

Nelson Rodrigues não se cansava de citar a grã-fina que ele tornou imortal: a das narinas de cadáver. A três por dois, ela era personagem de uma história impagável, em geral tendo o futebol por tema.

Possivelmente a mais conhecida é aquela da primeira vez em que a dama em questão foi ao Maracanã. Com o ar distraído e superior dos privilegiados desatentos às diversões das classes inferiores, ela se acomoda numa das cadeiras da tribuna de honra e, para seu guia e companheiro da aventura esportiva, pergunta ao ver jogadores, árbitro e bandeirinhas começarem a se locomover no campo:

- Quem é a bola?

Na época, possivelmente anos 50/60, achava-se muita graça. Afinal de contas, a bola era a número 5, brilhando alaranjada na tarde de domingo, e 32 era o número de seus gomos, sendo que costurada à mão e de um peso que... aí eu tenho que adivinhar.

Não acho na internet, nós temos - em certos casos, um costume providencial - o hábito de esquecer tudo que se passou há mais de, digamos, dois anos. Sei que, a partir da copa mundial de 1970, quando erguemos o caneco pela terceira vez (ainda não havíamos violentado a língua chamando-nos a nós mesmos de "tri-campeões"), passamos todos, nós e o mundo, a utilizar uma bola confeccionada com pentágonos e hexágonos. Uma estrutura poliédrica chamada icosaedro truncado. Quer dizer, um dos treze poliedros conhecidos como sólidos de Arquimedes. E paro por aqui pelo fato de eu próprio já ter me entediado.

Fato é que, no caso, a grã-fina e suas narinas de cadáver teriam motivo de sobra para fazer várias perguntas pertinentes:

- Que é um pentágono? Onde posso comprar um hexágono que não morda? O icosaedro truncado vale mais que um ás de Copas? Engraçado eu poderia jurar que o nome do marido da Jackie não era Arquimedes...

As possibilidades são infinitas. E imortais como as grã-finas de narinas de cadáver. Já as bolas...

Ora, bolas, as bolas!

Neste mundial onde os pontapés iniciais estão acabando de ser dados, a bola é a maior incógnita em campo. Possivelmente também, no meu inculto entender, o que há de mais interessante. A partir do nome: Jabulani, conforme a batizou seu desenxabido fabricante, a Adidas. Jabulani, dependendo de onde você catar a informação, quer dizer "levando a alegria para todos" em língua zulu, falada na ex-Zululândia, hoje província de Kwazulu. A língua zulu também pode ser chamada de isiZulu.

Feitas estão as apresentações. Perdura, sem resposta adequada, a pergunta presumivelmente feita há algumas décadas:

- Quem é a bola?

Ou, ao menos, para ser gentil:

- Que é a bola?

Não cabe e não coube aos milhões, ou bilhões, segundo outros, de apreciadores de futebol, dar palpite nessa história. Nem àqueles que o praticam profissionalmente. Fifa e Adidas resolveram, resolvida está a questão. Faltam apenas alguns pequenos dados, como numa ficha policial, ou complemento de retrato falado.

A nova bola bolada especialmente para esta Copa, a primeira realizada no continente africano, tem um design que consiste de oito gomos tridimensionais ligados por método termal. São esferas moldadas por acetato de etileno de vinil (EVA) e poliuretano plástico (TPU), com uma superfície de sulcos desenvolvida cientificamente pela Adidas (que logo cunhou e registrou a marca, qual seja, GripnGroove) destinada a aprimorar a aerodinâmica da - baixemos o nível da coisa - da redonda ou Leonor, conforme a chamava o grande Didi.

As Jabulanis são fabricadas na China com látex oriundo da Índia, sendo que os outros ingredientes - EVA, TPU, poliéster, algodão, cola e tinta - tem origem em Taiwan, ou Formosa, como preferem alguns.

"Quem é a bola?" Neste ano a resposta é mole (ou leve demais, como se queixam alguns jogadores, principalmente os goleiros). A bola é a coisa mais fascinante, ou, pelo menos, a menos enfadonha e a que mais controvérsia já desperta e despertará no Copa de 2010.

Esqueçam E'to, Messi, Rooney e Kaká. Vamos todos torcer pela bola. Que siga os mais inesperados caminhos e trajetórias. Pois a viagem, sabemos, é o que realmente importa.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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