Ivan Lessa: Como fugir do corte de gastos

Colunista dá dicas para amenizar o efeito dos cortes de benfícios sociais impostos pelo governo britânico sobre o orçamento familiar.

Ivan Lessa, BBC

25 de outubro de 2010 | 06h42

Foi o assunto da semana passada. E desta. Continuará sendo.

O governo da Grã-Bretanha anunciou o maior pacote de cortes de gastos públicos do país desde a Segunda Guerra. Os cortes incluem cerca de 7 bilhões de libras, ou, para nós, R$18,7 bilhões em benefícios sociais.

Até 2015, 490 mil postos de trabalho irão para a cucuia. Em quatro anos, o governo deverá chegar a 81 bilhões de libras, ou, em moeda nossa, perto de R$ 214 bilhões. O pau está comendo.

Nada que se compare à atual balbúrdia francesa, mas as sementes foram plantadas.

Na imprensa, a discussão é acalorada e chega a ser interessante acompanhar. Mesmo não entendendo nada a não ser da navalhada na carne de quem levou uma e procura estancar a sangria.

Eu não entendi nada. Procurei, como todo mundo, saber em que pé esse apertado sapato fiscal me virá doer.

De imediato, sem pé nem cabeça alguma. Mas, como tudo mais por aqui, como no ponto do ônibus, parece que o negócio é esperar. Ver como minha administração regional vai aplicar-me os golpes e se serão fatais ou não. Uma coisa ficou claro: os bancos se safaram de boa. O que não é novidade. Banco cria não poucas mas muitas e, depois, vive de escapar - numa boa, para variar.

Catando aqui e ali nos jornais, nas seções mais levianas, que não só de cacete na cabeça e navalha na carne vive o homem, mesmo o britânico, fui descobrindo maneiras de driblar os políticos que decidem como correrão as coisas com meu "rico dinheirinho" e minguadas posses.

No caso de algum bolo aí no Brasil vir a reverter todo esse processo social de enriquecimento (e que, tudo indica, terá prosseguimento com o próximo governo), conforme constato na Internet, passo adiante, como bom amigo e velho conterrâneo sempre solidário, embora distante, algumas dicas de como escapar de um corte na fachada financeira.

Se for resultado de briga com malandro armado de navalha, esquece. Tente chamar a polícia e dar entrada no pronto-socorro.

Segurai-vos, irmãos, e, a seguir, pois são grátis, segurai algumas dicas protetoras:

* Não vá ao teatro ou ópera. Um ensaio dessas funções artísticas é grátis e dá quase na mesma.

* Abra o jornal ou o computador. Procure achar conferências. O assunto é secundário. Pode ser sobre pensadores franceses ou cinema novo. O importante é ter alguma coisa a fazer que não custe nada a não ser a encheção de saco.

* Vá a uma vernisssage. Muitas, além de arte, metida a besta mas arte, oferecem salgadinhos grátis. Se houver vinho, mesmo nacional, considere-se um crítico sagaz. Observe tudo com ar interessado.

* Pegue um de seus seis livros velhos e comece a ler de novo. Uma página de cada vez. Sim, o assassino continua a ser o médico que mora ao lado da vítima, mas renovar uma emoção é o mesmo que revivê-la, conforme disse o Paulo Coelho que você - que pena - nunca chegou a folhear.

* Vá ver se eu estou na esquina. Vá a qualquer esquina. Só pelo passeio. Não precisa partir em busca de ninguém nem de nada. Um saudável exercício.

* Evite o assalto das quartas e quintas-feiras. No caso de você ser o assaltado, é evidente. Os de sábado, esses, todo mundo sabe, são inevitáveis e fazem parte do fino tecido de nossas vidas.

* Assobie um samba. Batuque na caixa de fósforo (antes pare de chamar de "fosqui"). Cantarole junto com o rádio do vizinho. Vox populi vox Dei: quem canta seus cortes nos benefícios sociais espanta.

* Pare com essa mania de comer. A comida engorda e faz mal ao coração, além de provocar aftas.

* Comece a parar de respirar. Um pouco de cada vez. Devagar se vai longe. Dois minutos hoje, três amanhã e assim por diante até, finalmente, você partir desta para melhor. Não se esqueça nunca: morrer é a grande solução, é o melhor remédio.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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