Ivan Lessa: Canto a canção da volta

Lendo a carta da 'escritora holandesa' que circula na internet, achei que bobeei em ter deixado o Brasil para trás; será mesmo?

Ivan Lessa, BBC

13 de dezembro de 2010 | 06h21

Custou mas chegou. Há cinco anos que circula na internet uma suposta carta de uma escritora holandesa decantando as coisas, graças, belezas e encantos de nosso Brasil brasileiro.

Já tinham me falado dela. Acreditava, no entanto, que se tratasse de lenda cibernética.

Eu recebo todos os dias gente querendo ser minha amiga nesse ou naquele outro sítio de relacionamento social. Convites para rachar com militar nigeriano fortunas presas em bancos por mera picuinha. Afrodisíacos os mais variados. Garantias de engrandecimento peniano. E por aí afora. Uma ou outra corrente da felicidade.

Semana passada chegou com suas sete laudas a carta da - e começam as aspas - "escritora holandesa" pedindo, de cara, que eu lesse com atenção e, depois, passasse adiante "de modo a mudar o pensar de cada brasileiro que, pelo menos por alguns momentos, refletir e se orgulhar de ser BRASILEIRO!!!"

Assim mesmo. Gritando comigo e me cobrando patriotismo.

Com esse clima que anda fazendo aqui, deixo vazar os pontos que mais me chamaram a atenção, além do fato de que, fosse eu "escritora holandesa" gostaria de alardear meu nome e, caso apócrifa, optaria pela nacionalidade sueca, que os suecos andam por cima da carne-seca.

Como neva e aguardo pressuroso o resultado do Caso Assange (extraditam ou não? Farão feito a Suécia onde, até há alguns anos, reinava à vontade a extraordinary rendition, ou seja, suspeito de terrorismo preso por americano passava sereno pelo país para ser interrogado na marra em Guantánamo ou equivalente?) destaco, como quem recolhe a um arquivo querido, fotos antigos de um velho Rio, ou velho Brasil, pelo qual passamos nossas vidas.

Um pouco de "escritora holandesa" portanto para alegrar nossas vidas e tornar mais difícil esta dura diáspora.

"Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil."

"Aqui na Holanda, os resultados das eleições demoram horrores. Nada é automatizado."

"Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o sanduíche em um guardanapo ou de lavar as mãos antes de comer."

"Em Londres, existe um lugar famosíssimo que vende batatas fritas enroladas em folhas de jornal - e tem fila na porta"

"Na Europa, não-fumante é minoria."

"Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e qualquer garçom de botequim no Brasil, ainda mais os cariocas, podia ir lá dar aulas de 'Como conquistar o Cliente`."

"Você sabe como as grandes potências fazem para destruir um povo? Impõem suas crenças e cultura..."

"Os brasileiros são vítimas de vários crimes contra a pátria, crenças, cultura, língua etc..."

E dados da Antropos Consulting, acrescenta nossa holandesa escritora. Antropos Consulting? Ah, bom. Agora, sim, a coisa muda de figura e adquire contornos de realidade.

"O Brasil é o país que tem tido o maior sucesso no combate à AIDS e de outras doenças sexualmente transmissíveis."

"Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária."

"O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) está informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações."

"Os internautas brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado da América Latina."

"Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando."

"O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos."

"O Brasil tem o mais moderno sistema bancário do planeta, suas agências de publicidade ganham os melhores e maiores prêmios mundiais, é a terceira maior democracia do mundo, o povo mais hospitaleiro do mundo e é um país abençoado de fato."

A "escritora holandesa" termina num dó de peito:

Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques. Bendito este povo, que oferece todos os tipos de climas para contentar toda gente. Bendita seja, querida pátria chamada Brasil!!"

Já marquei minha passagem de volta para fevereiro, quando deverei, ou deveria, completar, 33 anos seguidos de Londres. Que besta fui! Que bobeada!

Uma coisinha, Dona "Escritora Holandesa", e a Holanda, como é que fica nessa história toda?BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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