Ivan Lessa: Assange vazou, agora vazam nele

Sai da frente! A guerra cibernética foi declarada, que se cuide quem tiver cartão de crédito.

Ivan Lessa, BBC

10 de dezembro de 2010 | 07h27

O australiano Julian Assange, vazador emérito, cirador do site WikiLeaks e possivelmente a Personalidade do Ano da revista Time, foi preso esta semana aqui na Inglaterra.

Não deve dar em nada de grave. Acham. Só que já deu.

Afinal, extra-oficialmente ele já foi condenado à morte por diversas autoridades que se julgam patrioticamente atingidas.

Nos Estados Unidos do liberal, liberador e nobelizado Barack Obama, Assange já foi verbal (e quem dirá quantas vezes nas profundezas obscuras de almas politizadas ou não?) e fisicamente ameaçado com a pena capital. Sarah Palin, que dá um mau nome ao humor involuntário, referiu-se a Assange como "um anti-americano com sangue nas mãos". O veterano senador republicano Mike Huckabee declarou que "qualquer coisa que não seja a pena de morte para Assange é pouco." E vai daí.

A esdrúxula legislação sexual sueca enquadra Assange como culpado de assédio e coerção sexual, com estupro encaixado no meio, para dar clima.

Até há pouco tudo era muito vago. Uma vez preso o vazador emérito, a coisa foi ganhando seus contornos.

Ao que parece, em agosto deste ano, o quase albino antípoda, no decorrer de um seminário sobre vazamentos vários, encontrou tempo, já que ainda não tem 40 anos, para violar as leis nórdicas, mas em dias e ocasiões separadas, duas senhoritas, segundo dizem da melhor sociedade sueca.

Uma delas (Ingrid? Brigetta?) deu queixa, logo seguida de entrevista para um jornal. Na entrevista, a jovem senhorita contou, ruborizando, creio, que Assange, com essa mania de vazar, se recusou - e terminantemente - a tacar lá no bichão um protetor sexual.

Para ser mais claro que um vazamento diplomático: não quis botar (arram...) camisinha. Vazamento indevido em pleno território sueco.

A que deu a tal entrevista a um jornal sueco, foi explícita: Assange não foi violento e em momento algum ela se sentiu ameaçada por ele. "A responsabilidade pelo que houve comigo e a outra moça é apenas de um homem com problemas de atitude para com as mulheres", complementou a moça, bastante lúcida e articulada.

Armou-se, apesar disso tudo, o fuzuê que veio a se juntar a todos os outros duros percalços a que Julian Assange e o Wikileaks vêm acumulando. Não é pouca coisa.

A Amazon, provedor do WikiLeaks, pediu seu boné e mandou Assange passar bem. Idem, três companhias que recebiam as doações da qual dependia o WikiLeaks. Mastercard, Visa, PayPal.

Todas elas agora, até esta sexta-feira, vêm sofrendo por parte de uma sociedade - Anonymous - um tremendo ciberassédio por parte de hackers reagindo ao cerco de seu sítio: ataques assoberbando as ações informáticas do grupo. Operação "Dar o Troco", como estão chamando.

As companhias em questão, frise-se, ou melhor, frisam lá eles, agiram para o bem de todos e felicidade geral de todas as nações. Juram de pés juntos que nenhum deles sofreu pressão.

Dependendo do jornal que você lê, ficará sabendo que a ação conjunta veio bonitinha lá da Casa Branca, onde manda, quando não está envolvido com o basquete, o Prêmio Nobel da Paz de 2009, Barack Obama.

Também a Suíça congelou a conta de Assange. Postfinance, o braço financeiro dos correios suíços (ah, a decantada neutralidade suíça!) congelou a conta de Assange.

A guerra foi decretada. Quem tiver cartão de crédito que se cuide.

E parece que vem mais aí, se é que já não chegou: os "anarquistas" vazadores, mesmo acéfalos (Assange é mandão e chato para se trabalhar com ele, dizem), vão continuar dando troco e já avisaram que o Twitter está na alça de mira. Sai da frente, gente!

Vingança, vingança no peito a clamar, conforme o samba cafona do Lupicínio Rodrigues.

Tom Flanagan, professor na Universidade de Calgary, no Canadá, sugeriu outro dia mesmo, pela televisão, que, na verdade, "seria melhor para todo mundo que Assange fosse assassinado". E acrescentou, "Eu acho que Barack Obama deveria tacar um contrato pedindo a cabeça de Assange. Ou então atacá-lo com um drone (um pequeno avião bélico) ou coisa parecida." Um diplomata-bomba serviria, professor?

O ilustre professor estava sendo irônico. Acho. Parece. Nunca se sabe com os canadenses.

Na Austrália, sem muita pressa, as autoridades locais examinam a questão para se certificarem de que Julian Assange não violou alguma lei.

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