Itu chora a perda do comediante Simplício

Ele entrava em cena com a mulher, Ofélia, e ia logo dizendo: "Vai, Ofélia, diga pro home de que tamanho é a abóbora lá de Itu". E a mulher respondia, abrindo largamente os braços: "É deeeeesse tamanho..." E ele retrucava, bravo: "Não Ofélia, não é a pitanga, é a abóbora!" O humorista Francisco Flaviano de Almeida, mais conhecido como Simplício, que transformou Itu, no interior de São Paulo, na terra onde tudo é grande, foi enterrado na tarde de domingo na cidade que sempre amou. Ele morreu durante a madrugada, em um hospital local, vitimado por uma hemorragia interna, decorrente da falência múltipla dos órgãos. Simplício tinha 87 anos e deixou mulher e cinco filhos. A cidade parou para reverenciar um de seus mais ilustres filhos. Muita gente acompanhou o sepultamento no Cemitério da Saudade. O prefeito Lázaro Piunti decretou luto oficial por três dias. O orelhão gigante e o super-semáforo da praça Padre Miguel, a principal da cidade, inspirados pelo comediante, amanheceram envolvidos por um laço preto. O comércio central, principalmente as lojas e bares que vendem alimentos e objetos gigantescos - o sorvetão de Itu, o lanche de metro, a caneta, a borracha, as famosas lembrancinhas de Itu - trabalhavam com as portas entreabertas. Simplício nasceu e cresceu em Itu. Foi pipoqueiro, engraxate, jornaleiro e vendedor de lanches nos trens. Até que um dia se engajou em um circo que passava pela cidade. Na estréia, em Amparo, alguém lembrou que ele precisava de um nome artístico. "Eu sempre fui um cara muito simples, quase simplório aí começaram a me chamar de Simplício", contou, em uma de suas últimas entrevistas. Com a companhia de circo e teatro, rodou o interior de São Paulo e grande parte do País. Acabou conhecendo o ator Manoel de Nóbrega, que o convidou para trabalhar. Entrou para o elenco do programa Praça da Alegria, da TV Record, fazendo o personagem que exagerava o tamanho de tudo. "Como amo Itu, eu queria arrumar um jeito de divulgar a cidade. Aí passei a falar das coisas grandes de Itu", contou. O bordão pegou. É difícil alguém no Brasil não relacionar a cidade às coisas exageradas. Como muitos turistas chegavam atraídos por essa fama, o comércio passou a vender objetos de tamanho descomunal. Simplício foi também o primeiro secretário municipal da Cultura e do Turismo de Itu. Nos últimos anos, continuava colaborando com o programa A Praça É Nossa, uma espécie de continuação da Praça da Alegria.

Agencia Estado,

16 de fevereiro de 2004 | 17h01

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