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Laura Greenhalgh
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Itinerários de vida

LONDRES - Causou frisson no Reino Unido a declaração do escultor indiano Anish Kapoor em Berlim, ao inaugurar sua colossal exposição na Martin-Gropius Bau, numa área de 3 mil m². "Em resumo, a Inglaterra está f...", sentenciou, dias atrás. "Em resumo" porque, antes de partir para a síntese, Kapoor despejou um balde de críticas no seu país de adoção. Pior: comparou-o à Alemanha. Disse que o governo inglês empurrou para corner a educação e as artes, dois patrimônios tão nacionais quanto os bancos. Que David Cameron se tornou fóbico em relação aos imigrantes, ao passo que Angela Merkel reage a essa realidade investindo na formação dos indivíduos, inclusive os que vêm de longe. E aconselhou ministros ingleses a escutarem o mundo das artes, antes de cortar às cegas recursos para o setor.

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2013 | 02h09

Kapoor não sente a turbulência do euro no bolso. Bem ao contrário. Também não precisa falar grosso para ter vitrine. Suas obras falam por ele, em grandes cidades do mundo. O que fez foi dar voz a um sentimento que atravessa a vida das pessoas. Aqui na Inglaterra a crise está no ar. Há uma população mais contida e menos consumista nas ruas. Há mesas sem clientes nos restaurantes, táxis circulando vazios, tickets sobrando em muitas bilheterias. Há um amplo debate sobre os "young carers", milhares de crianças e jovens que hoje cuidam dos pais e avós, já que os asilos ficaram caríssimos e as vagas em hospitais públicos, mais raras. A BBC ouviu esses meninos e meninas. Triste. Resignam-se na lida diária com os doentes da família, fora as tarefas da casa. E largam os estudos.

Grécia e Espanha são espectros a rondar. Reportagens sobre a debilidade econômica destes dois países são quase tão frequentes nos canais de TV quanto os boletins meteorológicos, obsessão inglesa. Enquanto isso, o jovem primeiro-ministro conservador, acusado de ser elitista ("old etonian", referência à escola dos nobres e aristocratas, que Cameron de fato cursou), bate-se no Parlamento contra os eurocéticos - incluindo os rebeldes do próprio partido. Cobram-lhe uma revisão total da relação entre Inglaterra e União Europeia.

Claquete. Corta. A cena agora vai para Newcastle, norte da Inglaterra, onde há um centro cultural chamado Sage Gasteshead, na margem "errada", hoje vista como "certa", do rio Tyne. Por que passou do errado para o certo? Justamente pela presença deste complexo, um audacioso projeto do britânico Norman Foster, vencedor de uma competição entre arquitetos de renome. Gateshead era o lado pobre de Newcastle. Um lugar sujo e falido depois que Thatcher fechou dois estaleiros da região, levando ao desemprego milhares de operários, inclusive os do setor de carvão e aço. Assim o Sage nasceu, em 2004: fruto da cabeça de emuladores culturais e líderes trabalhistas, com recursos da loteria esportiva. Nasceu para recuperar não só a paisagem urbana, mas, acima de tudo, a paisagem social.

O Sage tem a música como eixo central, a bilheteria subsidiada e um enorme leque de atividades para a população, cobrindo o ciclo da vida: começa com grávidas e bebês, vai até os velhinhos. A organização atua dentro e fora do complexo - mais fora, exatamente para sair da zona de conforto - e tornou-se sede da Northern Sinfonia, uma orquestra de câmara que deixou de ser peça exclusiva das melhores salas europeias, para também tocar em escola pública. De início, os músicos da Northern resistiram a isso. Depois aderiram com entusiasmo.

Encontro oito brasileiros do Projeto Guri/Santa Marcelina, numa heroica rotina por lá. Fazem residência no Sage, que por sua vez faz residência no Guri, em São Paulo, num intercâmbio proposto anos atrás pela Secretaria de Estado da Cultura. É comovente ver o nível e a seriedade dos trabalhos. Inclusive a gana de fazer, e fazer bem, dos "guris". Katherine Zeserson, diretora de ensino do centro, quase não lhes dá tempo para comer. Visitam núcleos, dão aulas com os ingleses, preparam relatórios, fazem balanços. Num deles, Katherine repassa os quatro pilares do intercâmbio: qualidade, inclusão, progressão e inovação, nesta ordem. Pergunto por que qualidade encabeça a lista e ela responde que qualquer pessoa tem o direito de ser a melhor no que faz, "seja uma criança, um virtuose ou um portador de Alzheimer".

O problema é que, de novo, a região virou alvo do arrocho oficial. O desemprego voltou a crescer, violência e drogas, idem. Funcionárias da bilheteria do Sage estão instruídas a liberar o ingresso quando alguém lhes diz que está sem dinheiro. Tudo discretamente. A comunidade não pode ser afastada do seu centro. Na volta de um longo jantar, quando as duas margens do Tyne dormem em placidez, Katherine nos oferece o argumento definitivo pelo qual, em tempos de crise, não se pode cortar arte e cultura: "É a única forma de levar as pessoas afetadas a imaginarem outros itinerários de vida".

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