Itaú Cultural expõe o lado B dos anos 70

Pode-se chamar de revival dos anos 70, mas não espere a perpetuação de ícones como ripongas e suas batas ou cabelos black power e meias soquetes da era disco. É a produção cultural alternativa produzida no País à época da repressão o foco de uma mostra que pretende refletir o período e discutir a expressão cunhada para ele: "vazio cultural".Anos 70: Trajetórias começa no próximo dia 10 no Itaú Cultural trazendo exposições, debates e exibições de filmes englobando artes plásticas, música, teatro, literatura, cinema, dança e até história em quadrinhos. O Itaú Cultural reuniu 19 pesquisadores que durante seis meses trabalharam em busca das mais significativas expressões feitas no período de 1968 a 1979."Muitas das experimentações da década de 60 se estendem aos anos 70. A expressão ´vazio cultural´ que estigmatizou o período não leva isso em conta", explica o diretor da instituição, Ricardo Ribenboim, na carta de apresentação do projeto. A idéia é unir tanto as expressões marginais quanto aquelas possibilitadas pelos meios de comunicação, que começavam se ser amplamente utilizados pela ditadura para difusão do ideal "Brasil Grande".Um dos tópicos da mostra, a música, aparece já na ambientação do espaço reservado às exposições com uma "trilha sonora" que inclui de Chico Buarque a Waldick Soriano, de Mutantes a Bebeto, passando por Hyldon, João Bosco, Walter Franco, Clara Nunes e muitos outros."Não significa que estão só hit parades, também não é uma seleção acadêmica. Procurei pensar cada ano como um possível rádio, no qual tocam vários gêneros", explica o gerente do núcleo de música da mostra, Edson Natale. Além do som ambiente, a mostra terá um espaço próprio com sete torres com fones de ouvido para que os visitantes possam escutar músicas específicas.O grande evento musical, no entanto, será uma nova edição do espetáculo O Banquete dos Mendigos, show que se transformou em disco duplo homônimo lançado em 1973. Idealizado pelo músico Jards Macalé e pelo artista plástico Xico Chaves o evento comemorou o 25º aniversário da carta dos Direitos Humanos e teve o disco censurado, sendo lançado apenas dois anos depois. Reuniu gente como Chico Buarque, Raul Seixas, Paulinho da Viola, Gal Costa, Jorge Mautner e outros."É um espetáculo emblemático que continua valendo. Queremos reunir artistas que participaram da primeira versão com gente nova", diz. O evento vai ocorrer no Teatro Municipal no dia 10 dezembro, dia da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Também serão realizadas mesas-redondas com participação de músicos como José Miguel Wisnik e Luis Tatit.Arte conceitual - Na área de cinema, a mostra Poetas, Artistas, Anarco-Superoitistas: A Marginália 70 e o Experimentalismo no Super-8 Brasileiro exibe trabalhos de músicos, escritores, artistas plásticos e, claro, cineastas. São 180 filmes em super-8 mm de curta, média e longa-metragens dirigidos por gente como Hélio Oiticica, Torquato Neto, Cláudio Tozzi e Lygia Pape.O pesquisador Rubens Machado Jr. é o curador da mostra, que também terá a exibição do documentário Anos 70, da série Panorama Histórico Brasileiro. Dirigido por Marcelo Gomes com roteiro de Bráulio Mantovani e Malu Tavares, o filme trata da diversidade cultural da década. Nas artes plásticas, foram selecionados trabalhos de arte conceitual e de artistas simbólicos como Tunga, Cildo Meirelles e Luiz Carlos Baravelli.O crítico de arte Frederico Morais revive depois de mais de 20 anos e por meio de ampliações fotográficas as atividades dos Domingos da Criação. Eventos que ocorriam no vão livre do MAM do Rio de Janeiro e que reuniam pessoas comuns fazendo arte com materiais como areia e papéis. Na mesma categoria entra a pesquisa da crítica Lisette Lagnado, o Arquivo Hélio Oiticica, com escritos do artista.E há muito mais: sob a bandeira da literatura, dança e teatro, haverá espetáculos, mesas-redondas e até uma antologia virtual Anos 70 com 108 poemas de 29 escritores como Torquato Neto, Wally Salomão e outros no site www.itaucultural.org.br. Anos 70: Trajetórias - Itaú Cultural (Av. Paulista, 149, tel.: 3268-1700). Coquetel de abertura para convidados dia 9 de outubro. Exposição de 10/10 de 2001 a 13/01 de 2002. Segunda à sexta-feira, das 10 h às 20 h, sábado, domingo e feriado, das 10 h às 19 h. Entrada franca.

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