Italiano expõe olhar biográfico das guerras

Peça com matizes pessoais é destaque em Londrina

Maria Eugênia de Menezes, LONDRINA, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2010 | 00h00

Guerra. Diretor italiano Pippo Delbono envolve grandes conflitos bélicos em aura nonsense

 

 

No programa da peça, a fotografia de uma atriz a gritar em desespero parecia uma pista. O próprio título do espetáculo, Guerra, também sugeria à plateia certa ideia do que esperar da produção italiana, apresentada anteontem no Festival de Londrina.

Os indícios, porém, eram todos falsos. E, tão logo entrou em cena, o ator e diretor Pippo Delbono não demorou muito a frustrar essas expectativas.

Uma das mais aguardadas atrações desta 42.ª edição do festival, a montagem retira o espectador de qualquer possível zona de estabilidade. Criada em 1998, e até hoje no repertório da companhia, Guerra trata, de fato, de conflitos mundiais. Convoca ao palco impulsos de violência, emanações de crueldade.

Mas todas essas explicações soam bastante imprecisas e não serviriam para esclarecer por que o público ri, e ri muito, ao longo do espetáculo. "Que a guerra é algo terrível todo mundo sabe. Estamos buscando pontos de vista distintos", diz o diretor, que passou por Brasília entre os dias 18 e 20/6 e deve voltar ao Brasil em setembro para filmar um documentário na Bahia.

De microfone em punho, vestido de terno e gravata, Delbono abre a peça com um discurso que evoca o conflito de Sarajevo. Fala de cabeças decepadas pela estrada, crianças mortas, muros furados de balas. E salta, sem intervalo, para cenas que lembram um show de variedades, com um ator insinuando um strip-tease ao som de California Dreamin".

Discípulo de Pina Bausch, com quem trabalhou nos anos 1980, o encenador italiano diz ter trazido para o trabalho passagens biográficas, como a sua condição de soropositivo. "Minha biografia aparece de maneira muito forte. Às vezes, você tem de colocar a sua história. Não dá para tratar só do que está fora."

Nos primeiros minutos, personagens de loucura aparentemente doce, quase infantil, percorrem o palco. Aos poucos, cedem lugar a seres pretensamente "normais": uma dona de casa, seus empregados. Mas é daí que surge a insanidade que resultará em descontrole e assassinatos. "Há uma loucura terrível nessa normalidade aparente. Me interessa a guerra justamente onde ela parece não estar", provoca o diretor, agraciado em 2009 com o European Prize for New Theater, já foi concedido a nomes como Ariane Mnouchkine e Peter Brook.

 

* A repórter viajou a convite da produção do Festival

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