Itália luta contra o tempo para salvar tesouros da Renascença

Tremores que atingiram norte do país em maio deixaram rastro de destruição e danificaram obras.

Mark Duff, BBC

26 de novembro de 2012 | 14h36

Quando os primeiros terremotos a abalar o norte da Itália nos últimos 500 anos causaram mortes e estragos na Emília Romana, em maio, o rastro de destruição ultrapassou casas, prédios e infraestrutura, atingindo também algumas "joias" da arquitetura renascentista.

Seis meses depois, especialistas ainda lutam contra o tempo para fazer os reparos. O arquiteto Andrea Sardo trabalha no Ministério da Cultura italiano e é um dos responsáveis pelas obras de restauração.

"Fico muito chocado quando vejo esse tipo de coisa", diz o italiano, diante da basílica de São Francisco, na cidade de Mirandola, que foi praticamente destruída. "Você pode ver, através do buraco na janela, que o teto ruiu e que há grandes rachaduras em toda a fachada?"

Andaimes e equipamentos estão impedindo a fachada de ruir completamente, e algumas colunas restaram, mas além disso há muito pouco de pé.

Sardo é um veterano no assunto e já atuou nas obras de restauração após os tremores de Assis e Áquila, mas este, diz ele, é o pior que já viu.

A região atingida abriga algumas das mais sofitisticadas obras arquitetônicas renascentistas.

A basílica de São Francisco e o Duomo são duas das mais de 2,2 mil igrejas e outros prédios históricos que foram danificados ou destruídos nos dois tremores que abalaram a região em maio.

Desde então, os especialistas têm travado uma batalha contra o tempo para agilizar as obras de restauração antes que as chuvas e geadas do inverno as destruam para sempre.

Equipes de arquitetos e bombeiros de elite têm vasculhado a área, catalogando os detalhes de cada prédio, estátua, quadro ou crucifixos que precisam ser protegidos das intempéries do tempo ou restaurados.

Crise

Antonio Cuttitta, da equipe dos bombeiros, descreve o trabalho como uma operação de triagem, determinando prioridades e depois focando em proteger e salvar o que está em maior risco.

"Recebemos uma lista enorme de itens para recolher em igrejas, castelos e outros prédios", afirma. "Trata-se de uma questão de decidir o que se encontra mais vulnerável, que precisa de proteção mais urgente."

Estima-se que o trabalho tenha um custo de até US$ 3 bilhões.

Para se ter uma ideia da dimensão do que está em jogo, a União Europeia ofereceu US$ 856 milhões em ajuda, e o governo italiano deve investir quase US$ 10,3 milhões para tentar resgatar o patrimômio cultural da região.

Grazia de Cesare, do Instituto de Conservação e Restauração de Roma, reconhece que, em um momento em que o país - e a zona do euro como um todo - enfrentam uma de suas piores crises econômicas, o destino de obras de arte danificadas não é a maior prioridade.

"Ninguém está muito interessado nisso", diz De Cesare. "Não é uma prioridade."

O custo do trabalho também preocupa o arquiteto Andrea Sardo. "Não sei de onde vai vir o dinheiro. O governo prometeu ajudar, mas vamos precisar de investimentos privados também, talvez dos bancos", afirma. "Mas hoje em dia até os bancos estão sem dinheiro."

Para o bombeiro Antonio Cuttita, a situação é mais objetiva: "Não era a melhor hora para acontecer um terremoto." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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